Não discuta com um cachorro, você perderá.

19 setembro 2013

 

Eu não sei por que me importo, em algum momento pensarei melhor sobre isso, mas por hora só quero expor minha raiva. Não sei se tem haver com os filmes e desenhos animados que nos ensinam logo cedo que existe “O Escolhido” e que por ele ser o protagonista da história você se identifica com ele e acaba querendo ser tão especial quanto ele e carrega isso por toda a sua vida, sempre se achando e almejando ser O Escolhido, quando na verdade, no mundo real, você será apenas mais um no mundo. Uma pessoa que por mais qualidades que tenha, ainda será tão especial quanto outros tantos. Mas o que me incomoda, não é ter que aceitar não ser especial, é ver pessoas que nitidamente não o são acreditando que são.

Existem pessoas inteligentes, pessoas que independente dos estudos, entendem o mundo a sua volta, porque estão dispostas a entendê-lo. E mesmo que em alguns pontos estejam equivocadas, o que é o normal, não se sentem menores por ter que repensarem seus conceitos, por mais cristalizados que o sejam dentro de si. Gosto de me incluir nesse grupo, não por ser uma pessoa excepcional, ao contrário, sou um medíocre, mas por estar disposto a ouvir e a repensar meus conceitos quantas vezes forem necessárias e por respeitar as diferenças. Existem os fanáticos, pessoas incrivelmente passionais que são inflexíveis, mas que ainda assim é possível que exista entre eles, os que aceitam a existência “inexplicável” de gente que discorde delas e as respeitam. E existem os burros, pessoas com as quais um debate é simplesmente impossível. Pessoas que não mudam suas ideias por nada. Não adianta demonstrar o obvio pra uma pessoa burra, pois ela não entende o exemplo, não entende a intenção, não entende o método e no fim ainda te olha com um profundo desprezo. Devem existir outros tipos de pessoas, mas por hora esses poucos bastam pra expor o ponto que eu quero.

Um cachorro é um animal muito próximo a nós, um ser adorável que você gosta de ter por perto, mas é preciso entender que por mais inteligente que seja, existem limitações e elas devem ser respeitadas. Não se discute política com um cão, pois no máximo ele lhe mostrará que sabe ser fofo abanando o rabo e sorrindo pra você. Não importa quantas horas você leve discursando, no fim ele continuará tão ignorante sobre o assunto quanto antes da conversa. E existem pessoas que são iguais, embora nem sempre tão fofas e adoráveis. Pessoas pelas quais você sente um carinho muito grande, mas com quem não se pode conversar nada além de futilidades, pois quando se entra em qualquer discussão mais consistente os resultados são desastrosos, além de uma total perda de tempo. Você pode pensar em inúmeras pessoas que são assim, elas não me irritam por serem burras, ainda não cheguei no ponto, mas estou quase lá. Eu sou uma pessoa que alguns chamam de NERD por gostar de cultura POP e por ser desenhista, isso é discutível, mas não agora, o importante é saber com que tipo de gente eu costumo lidar. Pessoas que costumam ter alguma cultura e que por isso acabam se achando mais espertas do que as outras que só assistem a novela da globo. E não raramente são eles, os nerds, que acabam criando novos conteúdos de literatura, quadrinhos, música, material cultural em geral. E entre eles (não só entre os nerds) existem os undergrounds, pessoas que tendem a produzir um material cultural fora dos padrões da grande massa. O problema, eu acho que mora no fato de eu gostar de materiais de cultura de massa e underground na mesma medida. Sou capaz de chorar com um filme de hollywood e de ficar maravilhado com um escritor “boca do lixo”. E isso me faz transitar entre os dois meios. Dois meios que raramente se mesclam e quando o fazem criam conteúdos de qualidade deveras questionáveis, mas aí eu já estou me desvirtuando. O caso é que tenho amigos do meio underground que se incomodam com meu lado main stream e se sentem ofendidos por eu ser capaz de me adaptar com tanta facilidade, pois pra eles isso é quase inconcebível. Para certos tipos é como se eu fosse um falso, um vendido, quando na verdade eu sou uma esponja. Estou aqui pra sugar o que me interessa, e às vezes até o que não deveria, afinal, ninguém é perfeito! Isso é visto como uma falha de caráter ou como sinal de falta de personalidade. Eu tenho que lidar com isso, e não é fácil.

Já fui criticado por ter me adaptado ao mundo com muita facilidade. Como se eu não ser um desajustado, como eles, me tornasse um indigno. E me olham com aquele ar de superioridade, como se eu fosse um párea. E o pior, isso é dito a mim em momentos onde eles estão sendo incrivelmente preconceituosos, prepotentes e bocós. Pessoas que acham que só por que inverter valores as tornam muito superiores às pessoas que seguem os valores já predeterminados. Só por que pessoas fazem coisas por hábito, sem nem questionarem a razão daquilo, não são necessariamente inferiores àqueles que resolvem simplesmente fazer o oposto. Talvez o que faça o oposto esteja caindo no mesmo erro que a anterior, isso se não tiver caindo num erro ainda maior. E quando eu digo isso, as pessoas não conseguem sequer respeitar minha posição. Preferem me agredir. Não acho que essa ideologia de oprimido x opressor seja saudável e fomentar isso cada vez mais é escroto, independente do lado que você esteja.

É foda quando te acusam de ser uma puta. Como se trabalhar por dinheiro fosse um demérito. Para certos tipos, se você gosta dessa condição, você é um caso perdido. Se você desenha para um cliente pra sobreviver, é digno, mas se você cobra caro por isso, você é um capitalista filho da puta. Se você cobra barato e faz de má vontade, você é um espirito oprimido e que merece as graças do Senhor, mas se você cobra um valor alto e faz com esmero, você é um porco desprezível e seu destino é o inferno. (Sei que o próximo exemplo é só repetição e a essa altura você já entendeu o que quero dizer, mas eu preciso continuar. Você já leu até aqui, aguenta mais um pouco). Se você é uma prostituta que trepa chorando ou ao menos deixando claro ao cliente que não está gostando daquela condição, a você existe salvação, você é a Maria Madalena e Jesus em algum momento irá te salvar e dar uma condição de vida melhor pra você, pois sua alma é pura. Mas se você tem orgasmos com seus clientes, a você não existirá salvação alguma. Uma vez puta, sempre puta. PORRA! Em que ser uma frigida te torna melhor? Eu não sei por que eu ainda dou atenção a gente assim? Porque eu ainda tento discutir com bestas quadradas? E o pior é quando um miserável desses tem alguma aptidão notória. É nessa hora que o sujeito burro se sente um gênio. Pois se ele pensa o oposto da maioria e ainda tem algum talento, então obviamente ele é o dono da verdade e percebeu algo antes dos outros. Ele é um homem à frente de seu tempo! E por mais que você tente demonstrar a ele que está enganado, mais ele te despreza e quer cagar em você. Mas não raramente, um idiota desses seria incapaz de ler esse texto aqui sem fazer uma confusão dos diabos, pois quando chegasse à linha dez já teria esquecido o que leu na linha dois. O cretino expõe suas sandices pueris, cobertas num involucro de rancor e ignorância. Então você, com calma tenta demonstrar que a coisa não é bem por aí, que ele na verdade não está resolvendo o problema, apenas o está continuando sob outra roupagem, então o imbecil ignora a essência do seu discurso, se apega a uma frase sua, tenta te destruir em cima dessa frase e volta a repetir todo o discurso anterior com novas palavras demonstrando que em momento algum o que você disse o tocou. O que deveria fazer eu? Mandar tomar no cú? Ou apenas me calar e deixar o sujeito se achando o novo grande gênio incompreendido de seu tempo?

Eu não sei por que eu ainda tento discutir com cachorros, mesmo sabendo que no fim eu irei perder. Não que o cachorro seja mais inteligente que eu, mas exatamente por ser burro demais. Talvez eu não seja tão inteligente quanto penso, afinal!

Meu nome é Simara

21 maio 2013

“Vivo” hoje em um estado de consciência muito diferente de um tempo atrás, antes de vir para cá. E também não consigo precisar há quanto tempo estou nessa condição, pois aqui, nesse lugar, o qual sequer consigo descrever, em muito pouco se parece com uma casa, já que não têm janelas ou portas, nem TV ou rádio, ou nenhuma ligação com o mundo exterior ao ponto de eu não ter qualquer referência de tempo. Mal consigo lembrar das coisas. Parece que quanto mais fico nesse lugar menos lembranças consigo reter. Escrevo essas linhas com a intenção de organizar minhas ideias e tentar, mesmo que de forma vã, segurar o pouco de lembranças que me restam. A coisa mais forte que tenho em mim é que vim para cá com um propósito. Uma missão que impus a mim mesma, a de “salvar meu irmão”. Digo irmão porque sempre foi assim que construí essa frase, mas admito já não ter mais recordações dele. Bem poderia ser uma irmã, acho que tive uma irmã, na verdade tenho a sensação de que tive alguns irmãos e irmãs, mas seus rostos e nomes não passam de vultos desconexos, mas sei que estou aqui por causa de um irmão menor. Sei que é menor, embora eu não seja capaz de explicar de onde tiro tanta certeza.

Também me lembro de um padre, mas já não sei se o conheci ou se apenas sonhei com ele, pois admito já não saber mais quando estou acordada ou dormindo, se é que isso faz alguma diferença, mas no caso desse padre, ao contrário dos rostos dos meus possíveis irmãos, ele possui dois rostos. Não duas cabeças, é uma cabeça só, mas hora me lembro dele jovem e bonito, outra hora como um velhinho, sempre com um ar gentil e amistoso, embora quando velho sempre se apresente preocupado. Por falar em padre, já não sei mais fazer orações, parece que esqueci como se começa. Lembro de trechos de uma prece, mas não consigo mais colocá-las numa ordem que me pareça familiar. Sei que tem um “Orai por nós” e um “Vosso nome”, mas penso que está errado, pois se sou eu quem está orando, como poderia pedir em oração que outro alguém, cujo nome não sei, poderia orar por nós, ou melhor, por mim? Toda vez que penso em rezar sinto uma dor profunda e acabo por desistir.

Tenho a sensação de que já escrevi antes. De que já tentei outras vezes fazer o mesmo que faço agora. É o sentimento de que estou escrevendo a mesma frase repetidas vezes num quadro negro, embora eu esteja convicta de que reler o que já escrevi acima é um erro fatal e não me atrevo a fazê-lo. Tenho a certeza de que só posso continuar e nunca voltar, pois perderei tudo e terei que recomeçar. Como se tudo o que já fora escrito antes se apagasse ou virassem linhas tortas e ilegíveis. Por isso penso que estou sonhando.

Às vezes me pergunto se tenho pais. Sempre que penso nisso alguns casais se formam diante de mim, mas nunca me vejo, sempre é outra criança que está entre eles, seriam meus irmãos? Já não sei mais. Mas também me vêm imagens de uma mulher rigorosa arrumando uma criança como se a preparasse pra uma missa ou para receber uma visita importante, a lhe encher de recomendações. Eu vejo essa cena de longe, pela porta da cozinha onde eu lavo a louça de um almoço pobre, pois me lembro da fome que eu ainda sentia em meu estômago. Essa é, talvez, a lembrança mais valiosa que eu tenha, embora não tenha nada de memorável nela.

SIMARA, esse é meu nome. Sempre que lembro disso me obrigo a escrevê-lo imediatamente, pois não quero perdê-lo de novo. SIMARA é meu nome. Eu adoraria dizer muito prazer para alguém, mas não interajo com ninguém há muito tempo. Só assisto fragmentos de lembranças como quem vê um programa na televisão, mas parece que a programação esta cada vez menor. Sinto outra vez que estou me repetindo, mas como eu disse, ou acho que disse, reler é um risco ao qual não me atrevo a correr. SIMARA, porque nunca me parece demais repetir! SIMARA me parece um bom nome, acho que tenho sorte, poderia ser um nome feio. Pensar em um nome bonito me faz sentir bonita, pois me parece que é só o que me lembro de mim mesma. Não me vejo num espelho há tanto tempo que sequer consigo lembrar como sou. SIMARA!

Eu lembro agora de um irmão. Acho que estou aqui por causa dele, mas não sei mais como encontrá-lo. Talvez o padre possa me ajudar, mas já não sei mais rezar, como poderei então ser salva? Eu caí na mesma cilada que meu irmão? Pensando agora nele, e tentando lembrar do padre, acho que ele me disse “Seu irmão está morto”. E quando penso nisso, me lembro de um cemitério, será que eu estou morta também? Não é possível! Mas pensando bem, e se for? E se estou escrevendo isso com o intuito de organizar minhas ideias, e se eu já escrevi sobre isso antes? Se for assim, talvez eu encontre a resposta em páginas anteriores. Mas sei que se o fizer, poderei perder tudo. SIMARA, meu nome é SIMARA. Enquanto eu me lembrar disso ainda terei forças, embora eu preferisse saber rezar.

 

Ronaldo Santana

inspirado no conto Crianças à venda. Tratar aqui

do livro Sete ossos e uma maldição

de Rosa Amanda Strausz

Meu primeiro semestre literário

3 agosto 2012

Faz muito tempo que não venho aqui e acho que cabe registrar o que tenho li nesse primeiro semestre do ano de 2012.

Odd e os gigantes de gelo de Neil Gaiman, foi um livro rápido, divertidinho, mas nada grande coisa. Coraline foi muito melhor! Nesse livrinho que fala sobre Odin, Thor, Loki e é claro Odd, um menino manco que faz toda a diferença. É um livrinho dentro da cartilha. Não surpreende em nada, mas também não agride. Tipo Valente da Pixar que está nos cinemas.

Depois concluí minha leitura do livro Os Bestializados do cientista político e historiador José Murilo de Carvalho. que fala de um Rio de janeiro no inicio da Republica. Material de pesquisa para um futuro trabalho meu, para o qual estou me municiando, aos poucos, comprando livros sobre a década de 1880. Um projeto Steampunk de minha autoria, na verdade, por causa desse projeto é que comecei a pesquisar sobre steampunk e acabei por entrar na Loja Rio de Janeiro.

Depois disso eu entrei no clima estranho de Lourenço Mutarelli. Graças aos dois livros maravilhosos, O cheiro do ralo & O natimorto, tornei-me fã desse sujeito, então comprei outros livros seus e entrei de cabeça pelo Miguel e os demônios. Infelizmente o pior livro do cara. Esse é ruim mesmo, não recomendo a ninguém. Depois vim a saber que foi um livro encomendado e isso talvez justifique seu mal desempenho. Tem que deixar o cara solto. Livre para escrever o que quiser e quando quiser.

Já o Arte de produzir efeito sem causa, esse sim é Mutarelli puro. Foda! Não posso dizer que é o melhor, pois conversando com um amigo que também virou fã do cara, chegamos à conclusão de que tudo faz parte de um grande mosaico chamado Lourenço Mutarelli. Tudo o que ele escreve é ele mesmo. Mesmo que com motes diferentes (nem tão diferentes assim), em essencia tudo se trata de uma mesma história. E o Nada me faltará chega para confirmar isso. Sinopses de seus livros vocês podem encontrar por aí, mas o que precisam de fato saber é que se você ler e gostar de um livro dele, você gostará de todos, menos do Miguel e os demônios, pois alí, de fato ele perdeu a mão.

Tive o prazer de ir no lançamento do novo livro/HQ do Lourenço aqui no Rio. O livro/HQ é o Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente. Ainda não o li, pois a verba anda curta*, mas está na minha lista de compras.

*o bom de estar com a verba curta é que dou um tempo nas compras e me concentro em ler o que ja tenho. desenvolvi o vicio de comprar livros, mas o vicio de ler não consegue acompanhar, portanto tenho uma lista razoável de livros, em casa, pra ler.

Depois disso voltei ao mestre Rubem Fonseca com o livro O buraco na parede, e que prazer ler algo tão maravilhosamente bom. Esse se tornou um dos meu favoritos do homem. Todos os contos são bons. Perfeito.

Já sua pupila Patricia Melo, lembram que eu disse que daria a ela mais uma chance? Eu li Jonas o copromanta e achei fraco, porém como um bom amigo me recomendou o Acqua Toffana, resolvi dar a ela essa chance e o li. é um bom livro, de fato, mas não morri de amores. Ela me parece tiete demais do Rubem, e me faz pensar que tudo o que ela tem a dizer o Rubem ja disse antes e melhor. Talvez quando o velho se for e a saudade for tamanha eu redescubra em Patricia Melo um alento, mas por hora, to legal!

Depois voltei a ler o Mestre pegando o Histórias de amor, esse livro vem junto com o E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto. Pelo que entendi, dois livros comemorativos de aniversário da Cia das Letras. Muito fraco. é um livro irregular, tem bons contos, contos médios, mas os contos ruins me impactaram tanto que não consigo gostar do livro. Sacanagem! Ja o do charuto comecei a ler, mas parei pra botar outro livro na frente, estou lendo um livro de uma autora estreante. Mas até então eu estava curtindo o livro do mundo prostituto.

Mudando completamente o tipo de leitura a que estou acostumado, e seguindo aquilo que falei há pouco sobre estar duro, puxei de minha estante esse livro de poesias. Gênero que eu não compreendo, simplesmente. Mas aos poucos estou pegando. Sem compromisso, sem espectativas. Primeiro li o do Skylab, e curti. mas agora fui longe peguei um clássico e digo a vocês. Que prazer ler esse livro. Delicioso! Devo admitir que não compreendi tudo, pois se trata de uma mitologia própria e eu precisarei ler mais outras vezes pra captar tudo o que há ali. Mas o pouco que peguei me encantou profundamente. Me faz continuar animado em ler mais poesias. O próximo provavelmente será do Bukowski. To de olho no O amor é um cão dos diabos.

E pra fechar esse post, quero falar de um livro que eu estava me devendo ler faz anos. Desde que assisti uma entrevista do autor no CCBB e fiquei profundamente encantado com o Luiz Alfredo Garcia-Roza, que quis ler O silêncio da chuva, seu romance policial de estreia.

Ele não foge a regra das boas histórias que é começar o livro com uma boa frase, pena eu não o ter a mão agora para transcrevê-la. O livro é muito bom, muito prazeroso de ler, mas o final eu fiquei meio decepcionado. Uma porque o assassino era obvio e eu matei essa charada desde a metade do livro e outra como o caso se encerrou. Eu não gostei do fim, mas quando o descrevi para minha esposa, ela achou legal. Deve ser uma questão de gosto mesmo, talvez. Mas ainda assim fiquei satisfeito. Com certeza lerei mais histórias do Luiz Alfredo.

Bom, por hora é isso! Espero que o post não tenha ficado grande demais, e espero não demorar mais 6 meses pra voltar. Até mais!

Manhã de autografos AMAZON

24 maio 2012

No último fim de semana, a RJR produções em peso (Ronaldo Barcelos, Eu, Sérgio e Paulo Coutinho) foi à festa da família na escola Faria Brito para uma manhã de autografos do livro Amazon – Guerreiros da Amazônia: O Templo da Luz (volume 1 da trilogia).

 Foi muito bacana conhecer essa escola, as crianças e funcionários, pessoas fantásticas! Conhecemos até o Paulo Henrique, um escritor de 9 anos que pôs a professora pra redigir seu livro de contos. Muito figura!

Sobre o Amazon, este livro foi publicado em 2009 pela editora Litteris na Bienal do livro do Rio. Eles fizeram um trabalho bacana, mas o Barcelos precisava de um esforço maior para difundir o livro e assumiu que precisava editar o próprio livro, então, no ano passado fizemos um trabalho de revisão e fizemos algumas mudanças na obra. Mudanças relevantes e agora estamos estreando a RJR com esse título. O nosso “navio quebra-gelos”. Já temos o livro em algumas livrarias(deixarei a lista abaixo) e continuamos buscando mais.

Estamos finalizando o livro 2 para ser lançado em agosto, e o livro 3 no início de 2013.

Aqui transcrevo a orelha do livro:

Um acidente aéreo em pleno coração da Floresta Amazônica modifica a vida de dois cientistas, um piloto e três jovens, que passam a viver episódios dos quais nunca poderão esquecer-se, sob pena de verem a Amazônia destruída e, assim, toda a vida do planeta ameaçada. 

Em meio a aventuras e amores vividos, contam-se lendas brasileiras, que resgatam a tradição oral e transmitem o legado dos habitantes das florestas, numa mistura permanente entre presente e memória.

Como disse o sábio Alelauê: “nada acontece exatamente como planejamos”. E é justamente nesse universo de surpresas, capaz de seduzir o leitor da primeira à última página, que encontramos os Amazons, guerreiros ancestrais comprometidos com a sobrevivência da cultura de seu povo, com a proteção da “Flor do Sol” e com a preservação da maior floresta tropical do mundo. 

E, se a tarefa de vencer o mal parecer irrealizável, saiba que a batalha está apenas começando e que a jovem Arana nos deixa a lição transmitida por seu pai de que problemas e montanhas assemelham-se: distantes, parecem intransponíveis; próximos, tornam-se fáceis de superar.

A partir de agora, lembre-se:

“Você não pode fugir do seu destino!”

Nesse próximo sábado estaremos na unidade do recreio.

 

Lista de livrarias com o livro Amazon:

 

Livraria arlequim: praça xv de novembro, 48,  parte, centro.
Livraria blooks – botafogo (espaço unibanco): praia de botafogo, 316  lojas: d/e
Livraria malasartes: rua marques de são vicente, 52, loja 367, gávea (shopping da gávea)
Livraria solário: rua da carioca, 33, centro,
Livraria solário: rua sete de setembro, 169, centro
Livraria galáxia: rua méxico, 31, centro (em frente ao consulado americano)
Livraria galileu ipanema: rua visconde de pirajá, 207, ipanema
Livraria galileu tijuca: rua major ávila, 116, loja b,
Livraria galileu lgo. Do machado: rua do catete, 347, loja b
Livraria bolivar: rua bolivar, 42, copacabana
Livraria eldorado: tijuca – rua conde de bonfim, 422, loja k, tijuca

Pra começar o ano

22 janeiro 2012

 

Dando continuidade ao meu ultimo post onde eu falava da Paula Parisot… Eu terminei o gonzos e parafusos e sinceramente gostei bastante. Fiquei bem satisfeito e recomendo. Ela não tem muito haver com o Rubem Fonseca. Não é bruto, não é rápido, nem longo. Ela tem um bom “timing”. Irei atrás de seu primeiro livro o “Dama da solidão”, de contos, para saber se é tao bom quanto. Tenho boas expectativas.

 

Já em 2012 eu voltei a ler o meu, até então em “stand by”, O herói de mil faces do monstro Joseph Campbell. É uma leitura deveras interessante e muito agradável durante um bom tempo, mas da metade pro final vai ficando cansativo, por isso fiquei um bom tempo sem lê-lo e até hoje não o terminei, mas pretendo seguir agora até o fim. Eu ja li o Poder do mito e seu respectivo documentário, ambos fantásticos.

As pessoas sempre vendem o trabalho do Campbell quase como se fosse uma fórmula de se construir histórias. Um manual do escritor. E isso sempre me causou uma péssima impressão. Não gosto dessa ideia de que existam manuais de se contar uma boa história. Acho que o escritor precisa ser autêntico. Contar uma história interessante e pronto. Estilo vêm da personalidade e das influências do autor. E antes que digam que isso é uma visão romântica da profissão do escritor, eu faço minhas as palavras do próprio Campbel quando perguntado: “Por que mitos? Por que deveríamos importar-nos com os mitos? O que eles têm a ver com minha vida?

Campbell: Minha primeira resposta seria: “Vá em frente, viva sua vida, é uma boa vida – você não precisa de mitologia”. Não acredito que se possa ter interesse por um assunto só porque alguém diz que isso é importante. Acredito em ser capturado pelo assunto, de uma maneira ou de outra.”

E de fato ele não fez um manual de nada. Ele fez, sim, uma pesquisa séria e apaixonada sobre os mitos e percebeu que em todo o mundo, os seres humanos possuem necessidades e buscam respostas para as mesmas perguntas, e curiosamente acabam descobrindo as mesmas respostas, só que com máscaras diferentes. Então, analisando os mitos, ele foi capaz de perceber e de nos mostrar quando as histórias se convergem e que mesmo sem nunca ler o tal “manual”, inevitavelmente você escreverá uma história que já foi contada antes com elementos dispares, porém equivalentes. É como dizer que todos os seres humanos sorriem quando ficam felizes, independente de sua origem e cultura. É uma característica humana. Claro que quem possui mais conhecimento, acaba tendo um repertório mais rico. Mas você não precisa ler Campbell querendo ser um bom escritor, como se fosse uma bibliografia indispensável para quem quer virar um best-seller. Não leia Campbell buscando isso. Leia buscando o conhecimento sincero e humilde. Você terá uma bela recompensa.

Sim, me tornei um fã da obra do homem. E diferente da maioria dos nerds fanáticos por Campbell por que são fãs de Star wars, creio que sou fã pelos motivos certos. É como ser nerd e ter que idolatrar J. R. R. Tolkien, quase como se você não tivesse opção, e se você demonstra insatisfação os tratam por herege como se Senhor dos anéis fosse uma religião. Admito, e sem vergonha, que nunca li Tolkien e por hora não pretendo ler. E só o farei no dia em que sentir vontade sincera, e não porque é um clássico indispensável e que todos precisam ler.

Bom, por hora é isso.

Pupilas de Rubem

29 dezembro 2011

Estou usando meus últimos dias de 2011 para conhecer as pupilas do Rubem Fonseca, que como já disse algumas vezes é meu escritor brasileiro favorito.

Quando ouvi falar da Patrícia Melo, me foi recomendado seu primeiro livro Acqua toffana, mas uma vez indo ao carrefour fazer compras deparei com dois livros dela incrivelmente baratos e os comprei, eram eles: Jonas, o copromanta; e Inferno.

Inferno é maior e eu ainda tenho preguiça com livros grandes, sim, sou um merda, então ficou pra depois e o Jonas eu queria ler, porém só depois de ler o conto copromancia do Mestre Rubem que é a curiosidade da obra. Os dois livros estão ligados por este conto. Aqui vai a sinopse de Jonas, o copromanta:

Duas paixões, é bom avisar, cultivadas de modo mais que peculiar. Como leitor, o herói de Jonas, o copromanta corrige os
romances que lhe caem nas mãos, quer se trate de Dostoiévski ou Nabokov. E, no terreno da adivinhação, o herói tem seu
próprio sistema, baseado no estudo compenetrado das formas do bolo fecal. Corrigir romances, decifrar fezes: meras esquisitices, até o momento em que, ao ler “Copromancia”, conto de Rubem Fonseca, Jonas chega à certeza alucinada de
ter sido dolorosamente plagiado por seu ídolo. Para piorar as coisas, a realidade resolve dar uma mãozinha à obsessão, e o
escritor passa a frequentar a biblioteca, fazendo (ou talvez simulando?) pesquisas para seu próximo romance.
A partir daí, o enredo mergulha numa espiral vertiginosa de perseguição e loucura. A leitura fervorosa que se transforma
em suspeita de plágio (“Nunca se sabe do que um escritor é capaz”) vai aos poucos roubando a substância do herói: os livros de Rubem Fonseca seriam uma transfiguração da vida de Jonas, ou esta seria um reflexo fantasmagórico do que se passa nos livros do autor carioca?

A ideia eu achei genial, por isso quis lê-lo antes do Inferno. Embora eu tenha emprestado Inferno a uma amiga que também gosta do Rubem e ela se apaixonou. Mas voltemos a mim. Peguei esse livro pra ler pouco antes do Natal e o terminei, estou conseguindo ler livros mais rápido que antes, isso é bom, pois leio devagar. É bacana, mas eu não fiquei completamente satisfeito e no meio tive a péssima impressão de estar sendo enrolado. É um livro pequeno, não tem nem 200 páginas, mas senti que podia ser ainda menor. Mas nada que incomode muito, a sensação passa depois de um tempo. Isso pode ser só a critica de um leitor preguiçoso. Embora eu jamais tenha sentido em Bukowski que estivesse me enrolando. O Rubem também dá uma enrolada nos romances. Afinal é um profissional da prosa curta. O que tenho a dizer então, pra concluir, é que é um bom livro, mas não é fodão. Mas fugindo a lógica, tentarei ler o Acqua toffana em seguida, e não o inferno. A experiência com o primeiro romance da Patrícia é que determinará se continuarei a lhe dar atenção, ou não.

 

Mas o Rubem tem um ponto fraco que são as mulheres. Basta uma garota cercá-lo na rua com um original para ler e ele gentilmente se predispõe a fazer a gentileza. Eu não poderia esperar menos dele. Então surgiu a segunda pupila, Paula Parisot com seu Gonzos e parafusos.

Estou lendo agora, ainda é cedo para fazer uma resenha, mas estou gostando. Estou na página 66 de 170, ainda tem assunto pra rolar…

Uma mulher pode ser pintada de várias formas. Uma mesma pintura pode ser vista por vários ângulos. Isabela é uma mulher como uma pintura de Klimt. Ou seria de Schiele? Ao mesmo tempo linda e grotesca. Uma jovem psicanalista no limite da esquizofrenia, confundindo seus pacientes com personagens, tentando delimitar as fronteiras de seu próprio ser e arrastando-se por um cotidiano frágil no qual cada suspiro é um sufoco. Vive um triângulo amoroso sem amor. Trata da loucura como um efeito colateral da vida. Revê o próprio passado com um desapego suicida, de quem não quer ser condenada à tragédia do dia-a-dia. Em sua segunda obra, e primeiro romance, Paula Parisot traz uma visão bem peculiar do universo feminino, com lirismo, inteligência e um humor por vezes sarcástico e absurdo. Gonzos e Parafusos é um romance sinestésico, ao mesmo tempo violento e delicado.

A sinopse em si não foi o que me atraiu e sim a performance que fez na época do lançamento do livro numa livraria de São Paulo aqui vai um link que fala sobre isso. Vale a pena conferir e inclusive buscar os videos do Rubem que foi visitá-la. Foi uma comoção. Bom, por hoje é isso, não sei se é o último post do ano, é possivel que eu termine o livro ainda em 2011 e provavelmente me despedirei adequadamente, mas por hora já adianto um Feliz 2012 pra você!

História do Olho

28 novembro 2011

 

 

 

Publicado em 1928, o texto de estreia de Georges Bataille (1897-1962) inscreve-se definitivamente na história literária do século XX. Num registro surrealista dissidente do célebre grupo francês, a novela acompanha as descobertas, feitos e extravagâncias sexuais do narrador e de sua amiga Simone, dois jovens que vivem magicamente à margem da censura adulta, percorrendo um cenário de sonhos. O livro faz da história libertina um veículo de revelações profundas sobre o corpo, a vida e a morte. Sua dimensão libertária, inconformista e inovadora justifica uma longa linhagem de admiradores e discípulos que inclui Roland Barthes, Maurice Blanchot, Yukio Mishima, Raymond Queneau e Michel Foucault.

Erotismo e Surrealismo
Eu sou um cara que compra livros pela capa, e sendo um pornografo assumido, comprei a história do olho por duas razões, uma – o belo cu na capa; dois – a editora cosacnaify que produz belos livros de arte com uma qualidade gráfica impecável e de muito bom gosto.
Comprei o livro sem recomendação alguma, apenas a curiosidade e essa empatia imediata pela capa. Por se tratar de uma história incrivelmente curta, e eu gosto disso, o livro possui varios acrescimos para encorpar a obra que é muito bom. Devo começar a elogiar a publicação desde o prefácio que ambienta sem revelar a obra que você lerá em seguida, e sem esse prefácio, talvez eu questionasse ou me irritasse com a ausência de lógica mundana que existe no livro. Então eu entendi esse elemento surreal. Li o livro com o mesmo prazer e fluidez que leria algo escrito por mim mesmo. Não que me identifique com as perversões alí contidas, mas a forma do texto é muito agradável. Recomendo a todos que tenham interesse. Não vou fazer ressalvas, pois acho que a capa ja diz a que veio. Se você é o tipo de pessoa que se ofende com a imagem contida nela, este livro não é pra você, mas se a capa te atraiu, assim como eu, divirta-se com todo o erotismo de História do olho.

Páginas: 136;
Dimensões: 210 x 138 x 13 mm;
Peso: 0.280 kg;

Preço: R$59,00 (eu paguei metade, porque tive a sorte de comprar no dia em que todo o site estava com 50% de desconto, talvez não o tivesse comprado se não fosse nessas circunstâncias.)

 

A rede de espíritos

29 agosto 2011

Parte 2

Então foi surpreendido por mãos fortes que o puxavam para cima, o tirando de dentro do veículo. Ele não fora capaz de perceber a aproximação da criatura, pois a caldeira era extremamente barulhenta. No escuro ele não conseguia ver quem o suspendia, ele estava indefeso. Sua rede de espíritos tinha ficado no automóvel que sem condutor seguiu desgovernado até a rocha a beira da estrada. Pela velocidade e o impacto o Benz Velo explodiu, fazendo pedaços de metal voar por todo o lado. Agora com a luz das chamas ele pode ver que a criatura alada era como o anjo anterior, porem de asas negras de morcego. Sem dúvida era um demônio. Este o soltou, deixando cair sobre a pista de terra.

– Onde pensa que vai correndo deste jeito rapazinho?

– Estou fugindo de um anjo.

– Ora, mas que coisa inusitada, normalmente as pessoas fogem dos malvados, por que você foge dos mocinhos? Ou será que você é um dos bandidos?

– Se eu soubesse quem é quem!

– Ótima resposta Charles. Então deduzo que ainda não decidiu de que lado lutará.

– Na verdade decidi não lutar. Essa luta não é minha.

– Sábia decisão! Então não vai se importar se eu pegar o seu invento emprestado.

– Ele não existe mais, explodiu agora quando bateu naquela parede.

O Demônio olha para o veívulo em chamas e parece não se espantar.

– Bem, quem faz uma vez, pode fazer outras.

– Não vou fazer outra. Acabou!

– Não seja radical. Eu posso lhe fazer uma proposta. Posso dar a você o que quiser. Dinheiro, mulheres, prestígio, fama, até mesmo o amor verdadeiro de Lady Danielle! Que tal? Só preciso que faça outra arma daquelas.

– Os anjos também a querem. E se me procurarem como já procuraram?

– Fique a vontade para fazer armas para quem você quiser. Eu estou aqui para comprá-las. E estou disposto a pagar o que vale. Nada de acordos como o de Fausto. Aqui só existe uma troca comercial. Nada de almas no contrato. Que tal?

– Se eu negar, me matará agora mesmo?

– De forma alguma, mas não garanto que o anjinho que você tapeou a pouco não o faça. Dentro do meu acordo posso incluir proteção contra anjos, que tal?

– Você pode fazer isso?

– Eu prometeria se não pudesse?

– Minha mãe me ensinou a não confiar em estranhos e menos ainda em demônios e você é os dois.

– Então prefere se arriscar, acha que pode se defender sozinho? Está bem! Quando mudar de idéia, basta me chamar! – então o ser alado voou e sumiu na escuridão da noite.

O rapaz colocou-se de pé e procurou entre os escombros, por sorte encontrou sua arma intacta, já que havia voado para bem longe das chamas quando o automóvel explodiu. Mas não conseguia encontrar sua mochila de munições. Desistiu de procurar e pôs-se a andar noite adentro.

Já eram 7:20 h quando o jovem Charles segurou no batedor da porta de Lady Danielle. Ela mesma atendeu e se espantou ao ver o amigo em tamanho estado de exasperação, mas também cansaço. Suas roupas estavam desajustadas, as faces ruborizadas e suadas.

– Por favor, Lady Danielle, não me negue guarita. Deixe-me entrar! – já pondo o pé para dentro da casa.

– Mas é claro Charlie, entre – e ele entrou – mas o que está havendo?

– Sofri um acidente na estrada, bati meu automóvel contra a montanha e venho andando desde então.

– Meu Deus, está machucado?

– Alguns arranhões, alguns pontos doloridos, mas nada grave, eu não estava no Velo na hora do impacto.

– Um banho, você precisa de um banho! Sophie! Prepare um banho para lorde Charles – a criada obedeceu.

– Charlie, o que faz com esta arma? – perguntou a donzela se apercebendo da garrucha nas mãos do rapaz.

– Essa arma não passa de uma péssima idéia! Uma invenção maldita.

– Não me diga que matou alguém?

– Com muita sorte, minha querida, só matei a mim mesmo! – então tombou no sofá.

– Acalme-se meu amigo, seu banho logo estará pronto, buscarei roupas limpas para você se deitar.

– Eu lhe agradeço muitíssimo, minha bela dama! – a moça corou com o inesperado elogio de Charles que até aquele momento nunca tivera feito gracejos para ela.

– Espere um pouco, está bem? – disse ela saindo do cômodo.

De tão cansado, Charles dormiu o dia inteiro. Só acordando na hora do crepúsculo. Ao se levantar encontrou roupas limpas dobradas sobre a poltrona ao lado da janela do quarto. Enquanto se vestia, mantinha o olhar na direção de sua arma pousada no chão, ao lado da cama. Charles desceu as escadas com a garrucha em punho e encontrou sua anfitriã supervisionando as criadas porem a mesa.

– Que bom que acordou, Charlie! O jantar logo será servido. Mas por que anda com esta arma? – espantou-se a moça ao se dar conta.

– Não posso perdê-la de vista. Desculpe a minha indelicadeza. Eu agradeço todo o apoio que me deu, mas não posso permanecer aqui.

– O que você fez, Charlie? Quem o está procurando?

– É uma história longa e complicada, e esta arma é o centro de tudo. Mas não se preocupe, ela não faz mal a ninguém. Não serve para caçar cervos, nem homens.

– É uma de suas invenções, então?

– Exatamente!

– Por isso não reconheci seu modelo, não que eu seja especialista em armas, mas nunca vi nenhuma se quer parecida.

– Bem, eu tenho que ir, milady!

– Já vai? Por favor, fique! Jante comigo, não há mais ninguém na casa além das criadas. Me faça companhia, vou adorar ouvir suas histórias. Seja meu hospede por mais esta noite e amanhã após o desjejum, o senhor poderá ir para onde quiser!

O Rapaz relutou, mas aceitou o pedido. Jantaram e conversaram longamente. Charles evitou falar da arma, embora não tivesse se afastado dela, nem por um segundo. Mais parecia um neurótico de guerra. Conversar com Lady Danielle era para ele algo deveras agradável. Nutria por ela um amor platônico. Mas se antes não teve coragem de se declarar, agora é que não o faria, pois estava encrencado. É claro que com o passar das horas e alguns drinques ele já se sentia mais relaxado. Então chegou a madrugada e ambos subiram para dormir. Charles estava deitado, quase dormindo quando viu sua anfitriã fechando as cortinas. O curioso é que não percebeu quando ela entrou pela porta. O sono fazia sua vista turvar e só sabia que sua Danielle se aproximava de seu leito. Ela talvez imaginasse que ele já estivesse dormindo, então se curvou para beijar-lhe o rosto. Ele mal poderia acreditar que estivesse acontecendo, então, como num reflexo malicioso, Charles virou a cabeça e beijou os lábios da moça. Que não recuou. Era um beijo suave, muito suave. Ele ainda estava exausto e um pouco embriagado, mas aquela sensação era muito agradável. Sem nada dizer, Lady Danielle subiu sobre o corpo de Charles e deitou-se sobre ele. Continuou seus beijos macios e a fazer carícias em seu peito, com aquelas mãos pequeninas. Charles não sabia se era um sonho, ou se real, mas se entregava facilmente quando um lampejo de consciência o fez despertar completamente. Ele assustou a moça, que curvou totalmente o corpo para trás. Charles viu a figura de sua amada turvar por um breve momento, chegou a esfregar os olhos. Ele ainda a via, mas não sentia mais seu peso.

– Súcubo cretina! – levantou-se gritando. E correu na direção de Lady Danielle que ficara imóvel. Ele a alcançou e esbofeteou sua face. A sensação não era mais que uma brisa entre seus dedos, mas a moça reagia como se tivesse recebido o mais forte dos golpes. Ela tombou e mais do que dor, ela expressava espanto. Sua forma então deixou de ser o de uma mulher loura de cachos longos e traços delicados e passou a ser como os de uma ruiva desgrenhada e nariz de batata. Não chegava, de forma alguma, a ser feia, mas em muito pouco se parecia com Danielle.

– Como consegue me tocar?

– O que faz aqui bacante maldita? Veio atrás da arma? Quer que eu a use em você? – o rapaz voltou para perto da cama com a intenção de agarrar sua garrucha, mas quando se virou a súcubo já havia sumido. Provavelmente atravessara as paredes.

Charles então abriu a porta de seu quarto e conseguiu ver a mulher correndo pelo corredor. Ele não tinha tempo para mirar, mas o tiro foi certeiro. A criatura tombara no chão, agora com peso, presa dentro da rede fantástica. Ele se aproximou da garota que se debatia freneticamente.

– Não adianta, esta rede foi feita para capturar criaturas como você. Só sairá daí se eu te soltar.

– Maldito seja, Charles Betkowski! – esperneou a garota.

Nesse instante Lady Danielle apareceu no corredor completamente assustada, pois tinha ouvido o alvoroço que vinha do quarto de seu hóspede. Espantou-se quando o viu no corredor de camisolas, garrucha na mão e um corpo no chão se debatendo.

– Charles o que está acontecendo?

– Acalme-se Danielle! Pode vir! Não se assuste!

A bela moça confiou no amigo e se aproximou.

– Quem é ela?

– É uma súcubo, esta pergunta é fácil, a difícil é o que farei com ela? – disse Charles pondo a mão na cabeça.

Minutos depois, Charles já tinha carregado a Súcubo para seu quarto, posto roupas decentes e explicado tudo, ou o que conseguia lembrar, para Lady Danielle. Agora estava pronto para interrogar sua prisioneira.

– Pois muito bem, o que veio fazer em meu quarto? – esbravejou o rapaz para a moça no chão.

– Vim lhe trazer um pouco de diversão!

– Se não fossem os últimos acontecimentos eu até acreditaria nessa versão, mas hoje só consigo imaginar que estivesse atrás disto – apontou a arma para a súcubo.

– Temos que destruí-la e você sabe disso.

– Destruí-la já não é mais o bastante. Os demônios esperam que eu faça mais para eles e em breve os anjos também me alcançarão com propostas similares. Logo vocês perceberão, se é que já não perceberam. Que só com a minha morte terão chances de fugir.

– Sim, mas não é o bastante matá-lo, precisamos destruir o protótipo e os projetos.

– Não existem projetos, tenho tudo em minha mente. Tudo o que precisam destruir está diante de você. Mas não quero morrer. E vou lutar até o meu ultimo fôlego, entendeu?

– Você não tem chances. Está sozinho! Pressionado pelos anjos e pelos demônios e perseguido por íncubos e súcubos. Quanto tempo acha que vai durar? – desafiou a ruiva de dentro da rede.

– Eu sinceramente não sei. – falou Charles em completa desesperança.

– Espere um pouco Charles! Eu sei o que fazer – disse Danielle pondo-se a caminhar na direção da súcubo – Se eu soltá-la, me promete que não fugirá e que ouvirá a proposta que tenho a fazer? – a súcubo estranhou a atitude da moça, mas concordou. Danielle segurou a rede e puxou-a arrebentando com facilidade. Não tinha uma resistência maior que a de uma teia de aranha, era impressionante que algo tão sutil fosse capaz de prender aquela criatura de forma tão eficaz.

– Ouça! Este homem é um gênio e mesmo que seja destruído, não existem garantias de que seus inimigos os deixarão em paz. Ele foi capaz de criar algo para destruí-los, é bem capaz de fazer algo para protegê-los. Unidos terão mais chances de sobrevivência.

A conversa continuou durante algumas horas e no final a súcubo concordou em levar o cientista Charles Betkowski ao encontro de um pequeno grupo de íncubos e súcubos. Esse tipo de ser não costuma viver em grupos grandes, mas agora teriam que se unir em prol de sua sobrevivência. Viraram nômades, fugindo de seus inimigos e recrutando aliados para a luta entre o céu e o inferno que aconteceria na alvorada do século XX. O ano era 1897 e estes seriam os 3 anos mais longos de suas vidas.

Deus Ex Machina e um conto que não entrou

25 agosto 2011

Este Mês foi lançado o livro Deus Ex Machina – Anjos e demônios na era do vapor; pela editora Estronho.
Ele custa R$31,80, mas eu comprei o pacote que inclui o também lançamento Steampink, então gastei R$56 nos dois. Chegaram hoje aqui em casa e eu ainda não os lí, por isso não vou comentar nada além do visual dos livros que são belíssimos. Achei de muito bom gosto. Dá vontade de ler, o que farei em breve e comentarei aqui.

Mas por hora só tenho a dizer que também escrevi um conto para essa antologia cujo o tema, pelo que me lembro era falar sobre a batalha entre anjos e demônios no século 19 com algum elemento steampunk, algo assim… Este conto abaixo não foi selecionado e não faz parte do livro, portanto um Bônus exclusivo, hehehehe! Espero que gostem da leitura.

AH, como o conto possui 7 páginas, achei melhor publicá-lo, a exemplo da Dana Guedes, em duas partes. Aqui vai a primeira:

A rede de espíritos

– Milady era fantástica. Eu poderia contemplar sua figura durante horas, a fazer coisas extremamente simples como, passear pelo seu jardim, ou chamar seus filhos para o jantar, ou somente dar ordens às criadas.

– Naquela ocasião eu a assustei. Ela escovava seus cabelos castanhos diante da penteadeira durante um longo tempo, como fazia todas as noites antes de dormir. Eu estava lá, contemplando-a quando no meio de minha distração me fiz visível. Como quem tivesse visto um fantasma ela se virou, espantada em minha direção, só então percebi meu reflexo no espelho e me fiz invisível novamente. Ela não gritou, mas pôs se de pé e recuou para perto da janela ainda segurando a escova. A sensação de pavor me tomou completamente. Vê-la com medo de mim era tudo o que eu não queria. Ela ficou ali alguns segundos, então, acreditando estar sozinha no quarto se aproximou da porta onde eu ainda estava. Ela caminhou lentamente com a mão esticada para frente. Eu queria sentir seu toque, mas se me materializasse naquele momento ela certamente correria apavorada. Então continuei quieto e esperei que se acalmasse. Esperei que fosse para a cama. Esperei até que estivesse completamente relaxada. Com os olhos já fechados, mas ainda com alguma consciência, então eu fiz. Tomei a forma de seu marido emprestada e subi sobre a cama. Eu agora possuía peso e aproximei meu rosto barbado ao dela que sorriu ao me sentir. Eu também sorri. E disse que a amava. Ela reconhecia minhas formas e meu cheiro. Ela sentia seu marido como algo familiar e então a possuí.

– Você a enganou.

– Se fosse um trabalho eu poderia dizer: só fiz o meu trabalho, mas como não é o caso, só posso lhe dizer que fiz o que faço.

– Não espere que por me contar isto eu o tratarei como um pai.

– Nunca pediria isso a você ou a qualquer outro. Mas agora você sabe por que estão atrás da sua carcaça. Os exércitos estão se formando e você, assim como todos os filhos de íncubos são um reforço para ambos os lados.

– Passei minha vida inteira tentando entender por que eu via essas coisas e agora que sei preferia nunca ter sabido.

– A vida real não é tão glamourosa quanto na literatura, não é?

– Nem um pouco.

– E então? De que lado ficará?

– Do lado dos anjos é claro. Só tenho a ganhar.

– Não se trata de ganhar, garoto ingênuo. Você não ganhará nada. Nesse tabuleiro você é só um peão. Deixe-me explicar uma coisa. Deus não é um rival com quem se possa competir. E os demônios sabem disso. Nunca se levantariam contra ele. Você não pode lutar contra alguém que diz “Faça-se” e seja lá o que for será feito.

– O que quer dizer com isso?

– Que Deus não está nessa. Isso tudo é coisa dos anjos. Esses maricas de penas nunca gostaram dos humanos. Você acha que no final te darão um lugar no céu, mas isso é mentira. E ficar do lado dos demônios e como apostar num azarão.

– Então o que eu faço?

– Fique fora! Essa guerra não tem nada haver com os humanos.

– Como não? Se os anjos ganharem o mundo ficará livre de todo o mal.

– Moleque, não seja burro! Essa guerra não mudará nada. Os anjos só estão entediados.

– Você não espera que eu acredite nisso?

– Pense bem! Como me achou? Eles te querem porque é um gênio. Porque criou esta máquina.

– Eu precisava te achar.

– Exatamente! Olhe só. Nós íncubos não somos nem anjos, nem demônios. Somos até inferiores aos anjos decaídos. Somos criaturas perdidas. Embora não pertençamos à natureza divina, somos de um aspecto e essência mais sutis que a dos homens. Estamos mais próximos do homem que qualquer outra criatura. Somos racionais, temos órgãos corporais e sentidos. Mas fomos criados a partir de matérias diferentes. O homem foi formado com a parte mais densa de todos os elementos, isto é, a lama. Uma espessa mistura de terra e água. Já nós, pelo contrário, somos feitos da parte mais sutil de todos os elementos ou de um deles.

– Isso é loucura.

– Como pode dizer isso? Você projetou esta máquina para encontrar seres vivos de matérias sutis.

– É claro que não fiz isso. Eu vejo fantasmas a minha vida inteira. Ou pelo menos julgava que fossem fantasmas. Agora sei que são vocês, íncubos e súcubos. Criaturas sátiras desprezíveis que criam aberrações como eu.

– É o normal das invenções. Mas já estamos fugindo do assunto. Escute Charles. Com esta máquina tanto os anjos, quanto os demônios poderão encontrar os íncubos e como não temos livre arbítrio como os humanos nos tornaremos os peões dessa batalha imbecil. E é isso que querem de você. Um humano nessa guerra é tão eficiente quanto uma pedra. Mas um filho de íncubo normalmente tem talentos úteis. No seu caso, seu intelecto superior. Não ceda aos assédios dos anjos, nem tampouco dos caídos.

– E o que faço? Fujo?

– Sim, mas antes destrua essa máquina maldita junto com seus projetos e recuse-se a fazer outra. Eles não podem obrigá-lo. Não possuem poder para tanto, mas se insistir com isso eles darão um jeito de tirá-la de você e assim, nós seremos o alvo.

– Já que não podem me fazer mal, que façam o que quiserem com a rede de espíritos.

– Por isso te chamo de ingênuo. Os anjos e os demônios podem não te fazer mal, mas os íncubos e súcubos podem. Então quando sentirem-se acuados, eles virão atrás de você e te destruirão. Somos mais fracos que os demônios, mas ainda somos superiores aos humanos. Esta rede é perigosa demais para continuar existindo. Esqueça-a. Destrua tudo e fique livre.

– Está me pedindo algo impossível, eu nunca destruirei o meu próprio invento, ainda mais compreendendo todo o seu potencial.

– Seu egoísmo só trará dor e sofrimento. O que espera fazer com isso? Caçar fantasmas nas casas de donzelas ricas, ou acha que será levado à presença da senil rainha Vitória como um grande inventor? Não seja tolo. Você criou algo que não tem valor algum para a humanidade, mas que serve aos propósitos celestes e demoníacos. Quanto tempo mais perdermos nessa conversa a chance de um deles aparecer é enorme.

– Você só quer me ludibriar para escapar.

– Acha mesmo? Charles, eu vim atrás de você. Eu me deixei ser pego para lhe contar tudo.

– O quão burro você pensa que eu sou? Se quisesse conversar, ou me dar algum recado, bastaria se materializar, assim como faz para copular com mulheres ingênuas como minha mãe.

– Está certo, você me pegou! Mas você bem sabe que não sou um demônio, sabe que minha natureza não é maligna. Não tenho interesse algum em lhe fazer mal. Pode me matar se quiser, eu não me importo, mas, por favor, destrua essa máquina antes que…

Infelizmente era tarde demais. A conversa fora demasiada longa e o anjo que estava no encalço de Charles Betkowski resolveu entrar pela janela de seu laboratório que ficava no porão da mansão, surpreendendo o jovem inglês e seu suposto pai que estava preso debaixo daquela rede de prata.

– Então resolveu associar-se ao demônio, Charles Betkowski? – indagou o anjo.

– Este aqui não é demônio algum e ambos sabemos bem disso.

– Você então acredita nas mentiras desta criatura pervertida?

– Não sei em quem acreditar, pra ser bem sincero.

– Olhe para este ser desprezível! Acha que temos de fato algum interesse nesse tipo, além da destruição? – falou com ar de desprezo, o anjo.

– Eu sinceramente não me importo – respondeu o rapaz.

– Então porque não puxa o gatilho de sua arma e mata-o?

– Esta arma não é o que parece e você também sabe disso.

– Percebo muita impertinência no seu tom de voz, macaco! – disse o anjo se inflamando.

– Diga-me uma coisa, senhor anjo que ainda não se apresentou, é permitido a você mentir? – perguntou Charles.

– A mim é permitido tudo, desde que não vá de contra as leis de Deus – respondeu orgulhoso.

– E não é vontade de Deus que os anjos se curvem diante dos humanos? – provocou Charles.

– Não sei o que isto tem haver com o assunto em questão.

– Apenas responda a minha pergunta.

– Você fala como se Deus não fosse também superior a você.

– Não tente me enrolar!

– Nunca ouvi do Senhor Deus tal ordem, macaco – o anjo já mostrava certa impaciência.

– Então não é verdade que Lúcifer caiu por se negar servir aos homens? – Charles continuava a questionar.

– E o que isto tem haver com me curvar diante de ti?

– Se negar a fazer isto não é ser orgulhoso? – Charles enfrentava o anjo, mas suava frio.

– Esta bem, eu me curvo diante de você Charles Betkowski – e o fez, o anjo, do alto de todo o seu esplendor pondo seus pés no chão, que até então flutuavam no ar. E se aproveitando de que o anjo estava de cabeça baixa Charles apontou sua garrucha e puxou o gatilho. Então a tal arma mostra sua real característica que é um lançador de redes de prata. A mesma que prendera o pai íncubo o impedindo de fugir. A rede cobriu completamente o anjo que com o impulso do disparo foi arremessado para trás. O jovem aproveitou o momento e correu porta a fora.

– Ora seu verme desprezível! Você irá me pagar por isso! – então o anjo com pouco espaço para se mover não conseguia se livrar daquela rede “mágica”.

Charles corria pelas escadas, subia para o térreo de sua casa. O rapaz não sabia o quão eficaz seu invento era contra anjos, e não ficaria por perto para descobrir.

Cruzando o jardim aproximou-se de seu automóvel americano modificado com uma enorme caldeira Hilmac. Era mais uma das suas engenhocas. O veículo era movido à combustão como qualquer Benz Velo, mas a caldeira servia como um propulsor a mais. Quando dava partida no carro, automaticamente acendia o fogo da caldeira. Obviamente levaria tempo para esta se aquecer, portanto o automóvel ganhava velocidade gradativa e exponencialmente.

Mais do que em qualquer momento Charles agradecia a queda da maldita lei da bandeira vermelha. O automóvel cortava as ruas com tudo o que tinha. Sabia que precisava recarregar sua arma então esperou uma reta e soltou o volante. Sua garrucha era de dois tiros apenas, amaldiçoou sua limitação, mas logo reconsiderou posto que a pouco fora o bastante para salvá-lo.

Fugir! Naquele momento era só o que conseguia pensar, logo ele que tinha pensamentos inventivos a todo instante. Precisava estar pronto caso alguma criatura alada tentasse interceptá-lo. Ele precisava decidir para onde ir, então pegou novamente o volante e tomou a estrada para Londres onde poderia pedir abrigo à Lady Danielle.

Fim da primeira parte

Sobre sovacos e nomes comuns

12 agosto 2011

Rubem Fonseca é um de meus escritores favoritos. Brasileiro, ainda não li melhor. Mas admito não ter lido muitos escritores ainda. Vergonhoso? vergonhoso é roubar e não poder carregar, e eu já passei esse tipo de vergonha, mas isso eu conto depois.

Foi um amigo que me disse uma vez, referindo-se a outros autores, e acho que vale para o Rubem, talvez para todos, que você não pode esperar que o artista se supere a cada trabalho. Quando você faz sua obra-prima, ou mesmo mais de uma, a expectativa é grande e você acredita que ele sempre fará coisas geniais, o que é uma busca nobre, porém injusta. Rubem já escreveu 27 livros, eu devo ter lido uns 8 ou 9 e garanto a vocês que os últimos não são os melhores.

José, o livro autobiográfico é um livro diferente e por sua natureza autobiográfica, deve ser avaliado diferente dos ficcionais. Não é um livro como os outros, deve ser lido com interesse e curiosidade apenas. Um livro para fãs.

Axilas e outras histórias indecorosas é fraco. Não ruim, ainda não li nenhum livro ruim dele. Apenas fraco comparado com outros. Não recomendo a ninguém começar Rubem Fonseca por este livro. Comecem pelo começo, como eu. O cobrador; 64 contos de Rubem Fonseca; Bufo & Spallanzani; Os prisioneiros; Lúcia McCartney. Será paixão a primeira vista. Estes últimos são apenas para continuar lendo algo novo de um escritor que você gosta muito. Sua obra já foi feita. Não esperem nem cobrem nada dele. Parece um crítica deprimida, cheia de compaixão, mas não é bem isso. Não é que ele tenha decaído. É só que seja lá o que o Rubem tinha a dizer ao mundo, ele já disse. Se você gosta do que ele disse, continuará gostando de ouvir. É como Wood Allen, ou Neil Gaiman. São caras muito bons, sempre vejo suas novidades com muito interesse, mas não espero que se superem. Adorei meia noite em París e foi seu último filme. Fantástico! Stardust e outros são muito bons, mas nada supera Sandman. É disso que estou falando. Comprarei até o último livro de Rubem e o lerei com entusiasmo, toda vez, mas sei que as melhores histórias ainda estarão nos livros antigos, que aliás, eu ainda tenho muitos aqui para ler. O próximo da fila é O buraco na parede, mas por hora voltarei ao Mapa do Tempo de Félix J. Palma, que interrompi para ler esses novos do Rubem. Escritor favorito tem esses privilégios!

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