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A rede de espíritos

Parte 2

Então foi surpreendido por mãos fortes que o puxavam para cima, o tirando de dentro do veículo. Ele não fora capaz de perceber a aproximação da criatura, pois a caldeira era extremamente barulhenta. No escuro ele não conseguia ver quem o suspendia, ele estava indefeso. Sua rede de espíritos tinha ficado no automóvel que sem condutor seguiu desgovernado até a rocha a beira da estrada. Pela velocidade e o impacto o Benz Velo explodiu, fazendo pedaços de metal voar por todo o lado. Agora com a luz das chamas ele pode ver que a criatura alada era como o anjo anterior, porem de asas negras de morcego. Sem dúvida era um demônio. Este o soltou, deixando cair sobre a pista de terra.

– Onde pensa que vai correndo deste jeito rapazinho?

– Estou fugindo de um anjo.

– Ora, mas que coisa inusitada, normalmente as pessoas fogem dos malvados, por que você foge dos mocinhos? Ou será que você é um dos bandidos?

– Se eu soubesse quem é quem!

– Ótima resposta Charles. Então deduzo que ainda não decidiu de que lado lutará.

– Na verdade decidi não lutar. Essa luta não é minha.

– Sábia decisão! Então não vai se importar se eu pegar o seu invento emprestado.

– Ele não existe mais, explodiu agora quando bateu naquela parede.

O Demônio olha para o veívulo em chamas e parece não se espantar.

– Bem, quem faz uma vez, pode fazer outras.

– Não vou fazer outra. Acabou!

– Não seja radical. Eu posso lhe fazer uma proposta. Posso dar a você o que quiser. Dinheiro, mulheres, prestígio, fama, até mesmo o amor verdadeiro de Lady Danielle! Que tal? Só preciso que faça outra arma daquelas.

– Os anjos também a querem. E se me procurarem como já procuraram?

– Fique a vontade para fazer armas para quem você quiser. Eu estou aqui para comprá-las. E estou disposto a pagar o que vale. Nada de acordos como o de Fausto. Aqui só existe uma troca comercial. Nada de almas no contrato. Que tal?

– Se eu negar, me matará agora mesmo?

– De forma alguma, mas não garanto que o anjinho que você tapeou a pouco não o faça. Dentro do meu acordo posso incluir proteção contra anjos, que tal?

– Você pode fazer isso?

– Eu prometeria se não pudesse?

– Minha mãe me ensinou a não confiar em estranhos e menos ainda em demônios e você é os dois.

– Então prefere se arriscar, acha que pode se defender sozinho? Está bem! Quando mudar de idéia, basta me chamar! – então o ser alado voou e sumiu na escuridão da noite.

O rapaz colocou-se de pé e procurou entre os escombros, por sorte encontrou sua arma intacta, já que havia voado para bem longe das chamas quando o automóvel explodiu. Mas não conseguia encontrar sua mochila de munições. Desistiu de procurar e pôs-se a andar noite adentro.

Já eram 7:20 h quando o jovem Charles segurou no batedor da porta de Lady Danielle. Ela mesma atendeu e se espantou ao ver o amigo em tamanho estado de exasperação, mas também cansaço. Suas roupas estavam desajustadas, as faces ruborizadas e suadas.

– Por favor, Lady Danielle, não me negue guarita. Deixe-me entrar! – já pondo o pé para dentro da casa.

– Mas é claro Charlie, entre – e ele entrou – mas o que está havendo?

– Sofri um acidente na estrada, bati meu automóvel contra a montanha e venho andando desde então.

– Meu Deus, está machucado?

– Alguns arranhões, alguns pontos doloridos, mas nada grave, eu não estava no Velo na hora do impacto.

– Um banho, você precisa de um banho! Sophie! Prepare um banho para lorde Charles – a criada obedeceu.

– Charlie, o que faz com esta arma? – perguntou a donzela se apercebendo da garrucha nas mãos do rapaz.

– Essa arma não passa de uma péssima idéia! Uma invenção maldita.

– Não me diga que matou alguém?

– Com muita sorte, minha querida, só matei a mim mesmo! – então tombou no sofá.

– Acalme-se meu amigo, seu banho logo estará pronto, buscarei roupas limpas para você se deitar.

– Eu lhe agradeço muitíssimo, minha bela dama! – a moça corou com o inesperado elogio de Charles que até aquele momento nunca tivera feito gracejos para ela.

– Espere um pouco, está bem? – disse ela saindo do cômodo.

De tão cansado, Charles dormiu o dia inteiro. Só acordando na hora do crepúsculo. Ao se levantar encontrou roupas limpas dobradas sobre a poltrona ao lado da janela do quarto. Enquanto se vestia, mantinha o olhar na direção de sua arma pousada no chão, ao lado da cama. Charles desceu as escadas com a garrucha em punho e encontrou sua anfitriã supervisionando as criadas porem a mesa.

– Que bom que acordou, Charlie! O jantar logo será servido. Mas por que anda com esta arma? – espantou-se a moça ao se dar conta.

– Não posso perdê-la de vista. Desculpe a minha indelicadeza. Eu agradeço todo o apoio que me deu, mas não posso permanecer aqui.

– O que você fez, Charlie? Quem o está procurando?

– É uma história longa e complicada, e esta arma é o centro de tudo. Mas não se preocupe, ela não faz mal a ninguém. Não serve para caçar cervos, nem homens.

– É uma de suas invenções, então?

– Exatamente!

– Por isso não reconheci seu modelo, não que eu seja especialista em armas, mas nunca vi nenhuma se quer parecida.

– Bem, eu tenho que ir, milady!

– Já vai? Por favor, fique! Jante comigo, não há mais ninguém na casa além das criadas. Me faça companhia, vou adorar ouvir suas histórias. Seja meu hospede por mais esta noite e amanhã após o desjejum, o senhor poderá ir para onde quiser!

O Rapaz relutou, mas aceitou o pedido. Jantaram e conversaram longamente. Charles evitou falar da arma, embora não tivesse se afastado dela, nem por um segundo. Mais parecia um neurótico de guerra. Conversar com Lady Danielle era para ele algo deveras agradável. Nutria por ela um amor platônico. Mas se antes não teve coragem de se declarar, agora é que não o faria, pois estava encrencado. É claro que com o passar das horas e alguns drinques ele já se sentia mais relaxado. Então chegou a madrugada e ambos subiram para dormir. Charles estava deitado, quase dormindo quando viu sua anfitriã fechando as cortinas. O curioso é que não percebeu quando ela entrou pela porta. O sono fazia sua vista turvar e só sabia que sua Danielle se aproximava de seu leito. Ela talvez imaginasse que ele já estivesse dormindo, então se curvou para beijar-lhe o rosto. Ele mal poderia acreditar que estivesse acontecendo, então, como num reflexo malicioso, Charles virou a cabeça e beijou os lábios da moça. Que não recuou. Era um beijo suave, muito suave. Ele ainda estava exausto e um pouco embriagado, mas aquela sensação era muito agradável. Sem nada dizer, Lady Danielle subiu sobre o corpo de Charles e deitou-se sobre ele. Continuou seus beijos macios e a fazer carícias em seu peito, com aquelas mãos pequeninas. Charles não sabia se era um sonho, ou se real, mas se entregava facilmente quando um lampejo de consciência o fez despertar completamente. Ele assustou a moça, que curvou totalmente o corpo para trás. Charles viu a figura de sua amada turvar por um breve momento, chegou a esfregar os olhos. Ele ainda a via, mas não sentia mais seu peso.

– Súcubo cretina! – levantou-se gritando. E correu na direção de Lady Danielle que ficara imóvel. Ele a alcançou e esbofeteou sua face. A sensação não era mais que uma brisa entre seus dedos, mas a moça reagia como se tivesse recebido o mais forte dos golpes. Ela tombou e mais do que dor, ela expressava espanto. Sua forma então deixou de ser o de uma mulher loura de cachos longos e traços delicados e passou a ser como os de uma ruiva desgrenhada e nariz de batata. Não chegava, de forma alguma, a ser feia, mas em muito pouco se parecia com Danielle.

– Como consegue me tocar?

– O que faz aqui bacante maldita? Veio atrás da arma? Quer que eu a use em você? – o rapaz voltou para perto da cama com a intenção de agarrar sua garrucha, mas quando se virou a súcubo já havia sumido. Provavelmente atravessara as paredes.

Charles então abriu a porta de seu quarto e conseguiu ver a mulher correndo pelo corredor. Ele não tinha tempo para mirar, mas o tiro foi certeiro. A criatura tombara no chão, agora com peso, presa dentro da rede fantástica. Ele se aproximou da garota que se debatia freneticamente.

– Não adianta, esta rede foi feita para capturar criaturas como você. Só sairá daí se eu te soltar.

– Maldito seja, Charles Betkowski! – esperneou a garota.

Nesse instante Lady Danielle apareceu no corredor completamente assustada, pois tinha ouvido o alvoroço que vinha do quarto de seu hóspede. Espantou-se quando o viu no corredor de camisolas, garrucha na mão e um corpo no chão se debatendo.

– Charles o que está acontecendo?

– Acalme-se Danielle! Pode vir! Não se assuste!

A bela moça confiou no amigo e se aproximou.

– Quem é ela?

– É uma súcubo, esta pergunta é fácil, a difícil é o que farei com ela? – disse Charles pondo a mão na cabeça.

Minutos depois, Charles já tinha carregado a Súcubo para seu quarto, posto roupas decentes e explicado tudo, ou o que conseguia lembrar, para Lady Danielle. Agora estava pronto para interrogar sua prisioneira.

– Pois muito bem, o que veio fazer em meu quarto? – esbravejou o rapaz para a moça no chão.

– Vim lhe trazer um pouco de diversão!

– Se não fossem os últimos acontecimentos eu até acreditaria nessa versão, mas hoje só consigo imaginar que estivesse atrás disto – apontou a arma para a súcubo.

– Temos que destruí-la e você sabe disso.

– Destruí-la já não é mais o bastante. Os demônios esperam que eu faça mais para eles e em breve os anjos também me alcançarão com propostas similares. Logo vocês perceberão, se é que já não perceberam. Que só com a minha morte terão chances de fugir.

– Sim, mas não é o bastante matá-lo, precisamos destruir o protótipo e os projetos.

– Não existem projetos, tenho tudo em minha mente. Tudo o que precisam destruir está diante de você. Mas não quero morrer. E vou lutar até o meu ultimo fôlego, entendeu?

– Você não tem chances. Está sozinho! Pressionado pelos anjos e pelos demônios e perseguido por íncubos e súcubos. Quanto tempo acha que vai durar? – desafiou a ruiva de dentro da rede.

– Eu sinceramente não sei. – falou Charles em completa desesperança.

– Espere um pouco Charles! Eu sei o que fazer – disse Danielle pondo-se a caminhar na direção da súcubo – Se eu soltá-la, me promete que não fugirá e que ouvirá a proposta que tenho a fazer? – a súcubo estranhou a atitude da moça, mas concordou. Danielle segurou a rede e puxou-a arrebentando com facilidade. Não tinha uma resistência maior que a de uma teia de aranha, era impressionante que algo tão sutil fosse capaz de prender aquela criatura de forma tão eficaz.

– Ouça! Este homem é um gênio e mesmo que seja destruído, não existem garantias de que seus inimigos os deixarão em paz. Ele foi capaz de criar algo para destruí-los, é bem capaz de fazer algo para protegê-los. Unidos terão mais chances de sobrevivência.

A conversa continuou durante algumas horas e no final a súcubo concordou em levar o cientista Charles Betkowski ao encontro de um pequeno grupo de íncubos e súcubos. Esse tipo de ser não costuma viver em grupos grandes, mas agora teriam que se unir em prol de sua sobrevivência. Viraram nômades, fugindo de seus inimigos e recrutando aliados para a luta entre o céu e o inferno que aconteceria na alvorada do século XX. O ano era 1897 e estes seriam os 3 anos mais longos de suas vidas.

contos

2 Comments to “A rede de espíritos”

  1. No primeiro post diz que o conto é em duas partes? termina aí? :(

  2. Termina aqui sim. sei que termina com um gancho, mas este é o fim mesmo, gostou?

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