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Deus Ex Machina e um conto que não entrou

Este Mês foi lançado o livro Deus Ex Machina – Anjos e demônios na era do vapor; pela editora Estronho.
Ele custa R$31,80, mas eu comprei o pacote que inclui o também lançamento Steampink, então gastei R$56 nos dois. Chegaram hoje aqui em casa e eu ainda não os lí, por isso não vou comentar nada além do visual dos livros que são belíssimos. Achei de muito bom gosto. Dá vontade de ler, o que farei em breve e comentarei aqui.

Mas por hora só tenho a dizer que também escrevi um conto para essa antologia cujo o tema, pelo que me lembro era falar sobre a batalha entre anjos e demônios no século 19 com algum elemento steampunk, algo assim… Este conto abaixo não foi selecionado e não faz parte do livro, portanto um Bônus exclusivo, hehehehe! Espero que gostem da leitura.

AH, como o conto possui 7 páginas, achei melhor publicá-lo, a exemplo da Dana Guedes, em duas partes. Aqui vai a primeira:

A rede de espíritos

– Milady era fantástica. Eu poderia contemplar sua figura durante horas, a fazer coisas extremamente simples como, passear pelo seu jardim, ou chamar seus filhos para o jantar, ou somente dar ordens às criadas.

– Naquela ocasião eu a assustei. Ela escovava seus cabelos castanhos diante da penteadeira durante um longo tempo, como fazia todas as noites antes de dormir. Eu estava lá, contemplando-a quando no meio de minha distração me fiz visível. Como quem tivesse visto um fantasma ela se virou, espantada em minha direção, só então percebi meu reflexo no espelho e me fiz invisível novamente. Ela não gritou, mas pôs se de pé e recuou para perto da janela ainda segurando a escova. A sensação de pavor me tomou completamente. Vê-la com medo de mim era tudo o que eu não queria. Ela ficou ali alguns segundos, então, acreditando estar sozinha no quarto se aproximou da porta onde eu ainda estava. Ela caminhou lentamente com a mão esticada para frente. Eu queria sentir seu toque, mas se me materializasse naquele momento ela certamente correria apavorada. Então continuei quieto e esperei que se acalmasse. Esperei que fosse para a cama. Esperei até que estivesse completamente relaxada. Com os olhos já fechados, mas ainda com alguma consciência, então eu fiz. Tomei a forma de seu marido emprestada e subi sobre a cama. Eu agora possuía peso e aproximei meu rosto barbado ao dela que sorriu ao me sentir. Eu também sorri. E disse que a amava. Ela reconhecia minhas formas e meu cheiro. Ela sentia seu marido como algo familiar e então a possuí.

– Você a enganou.

– Se fosse um trabalho eu poderia dizer: só fiz o meu trabalho, mas como não é o caso, só posso lhe dizer que fiz o que faço.

– Não espere que por me contar isto eu o tratarei como um pai.

– Nunca pediria isso a você ou a qualquer outro. Mas agora você sabe por que estão atrás da sua carcaça. Os exércitos estão se formando e você, assim como todos os filhos de íncubos são um reforço para ambos os lados.

– Passei minha vida inteira tentando entender por que eu via essas coisas e agora que sei preferia nunca ter sabido.

– A vida real não é tão glamourosa quanto na literatura, não é?

– Nem um pouco.

– E então? De que lado ficará?

– Do lado dos anjos é claro. Só tenho a ganhar.

– Não se trata de ganhar, garoto ingênuo. Você não ganhará nada. Nesse tabuleiro você é só um peão. Deixe-me explicar uma coisa. Deus não é um rival com quem se possa competir. E os demônios sabem disso. Nunca se levantariam contra ele. Você não pode lutar contra alguém que diz “Faça-se” e seja lá o que for será feito.

– O que quer dizer com isso?

– Que Deus não está nessa. Isso tudo é coisa dos anjos. Esses maricas de penas nunca gostaram dos humanos. Você acha que no final te darão um lugar no céu, mas isso é mentira. E ficar do lado dos demônios e como apostar num azarão.

– Então o que eu faço?

– Fique fora! Essa guerra não tem nada haver com os humanos.

– Como não? Se os anjos ganharem o mundo ficará livre de todo o mal.

– Moleque, não seja burro! Essa guerra não mudará nada. Os anjos só estão entediados.

– Você não espera que eu acredite nisso?

– Pense bem! Como me achou? Eles te querem porque é um gênio. Porque criou esta máquina.

– Eu precisava te achar.

– Exatamente! Olhe só. Nós íncubos não somos nem anjos, nem demônios. Somos até inferiores aos anjos decaídos. Somos criaturas perdidas. Embora não pertençamos à natureza divina, somos de um aspecto e essência mais sutis que a dos homens. Estamos mais próximos do homem que qualquer outra criatura. Somos racionais, temos órgãos corporais e sentidos. Mas fomos criados a partir de matérias diferentes. O homem foi formado com a parte mais densa de todos os elementos, isto é, a lama. Uma espessa mistura de terra e água. Já nós, pelo contrário, somos feitos da parte mais sutil de todos os elementos ou de um deles.

– Isso é loucura.

– Como pode dizer isso? Você projetou esta máquina para encontrar seres vivos de matérias sutis.

– É claro que não fiz isso. Eu vejo fantasmas a minha vida inteira. Ou pelo menos julgava que fossem fantasmas. Agora sei que são vocês, íncubos e súcubos. Criaturas sátiras desprezíveis que criam aberrações como eu.

– É o normal das invenções. Mas já estamos fugindo do assunto. Escute Charles. Com esta máquina tanto os anjos, quanto os demônios poderão encontrar os íncubos e como não temos livre arbítrio como os humanos nos tornaremos os peões dessa batalha imbecil. E é isso que querem de você. Um humano nessa guerra é tão eficiente quanto uma pedra. Mas um filho de íncubo normalmente tem talentos úteis. No seu caso, seu intelecto superior. Não ceda aos assédios dos anjos, nem tampouco dos caídos.

– E o que faço? Fujo?

– Sim, mas antes destrua essa máquina maldita junto com seus projetos e recuse-se a fazer outra. Eles não podem obrigá-lo. Não possuem poder para tanto, mas se insistir com isso eles darão um jeito de tirá-la de você e assim, nós seremos o alvo.

– Já que não podem me fazer mal, que façam o que quiserem com a rede de espíritos.

– Por isso te chamo de ingênuo. Os anjos e os demônios podem não te fazer mal, mas os íncubos e súcubos podem. Então quando sentirem-se acuados, eles virão atrás de você e te destruirão. Somos mais fracos que os demônios, mas ainda somos superiores aos humanos. Esta rede é perigosa demais para continuar existindo. Esqueça-a. Destrua tudo e fique livre.

– Está me pedindo algo impossível, eu nunca destruirei o meu próprio invento, ainda mais compreendendo todo o seu potencial.

– Seu egoísmo só trará dor e sofrimento. O que espera fazer com isso? Caçar fantasmas nas casas de donzelas ricas, ou acha que será levado à presença da senil rainha Vitória como um grande inventor? Não seja tolo. Você criou algo que não tem valor algum para a humanidade, mas que serve aos propósitos celestes e demoníacos. Quanto tempo mais perdermos nessa conversa a chance de um deles aparecer é enorme.

– Você só quer me ludibriar para escapar.

– Acha mesmo? Charles, eu vim atrás de você. Eu me deixei ser pego para lhe contar tudo.

– O quão burro você pensa que eu sou? Se quisesse conversar, ou me dar algum recado, bastaria se materializar, assim como faz para copular com mulheres ingênuas como minha mãe.

– Está certo, você me pegou! Mas você bem sabe que não sou um demônio, sabe que minha natureza não é maligna. Não tenho interesse algum em lhe fazer mal. Pode me matar se quiser, eu não me importo, mas, por favor, destrua essa máquina antes que…

Infelizmente era tarde demais. A conversa fora demasiada longa e o anjo que estava no encalço de Charles Betkowski resolveu entrar pela janela de seu laboratório que ficava no porão da mansão, surpreendendo o jovem inglês e seu suposto pai que estava preso debaixo daquela rede de prata.

– Então resolveu associar-se ao demônio, Charles Betkowski? – indagou o anjo.

– Este aqui não é demônio algum e ambos sabemos bem disso.

– Você então acredita nas mentiras desta criatura pervertida?

– Não sei em quem acreditar, pra ser bem sincero.

– Olhe para este ser desprezível! Acha que temos de fato algum interesse nesse tipo, além da destruição? – falou com ar de desprezo, o anjo.

– Eu sinceramente não me importo – respondeu o rapaz.

– Então porque não puxa o gatilho de sua arma e mata-o?

– Esta arma não é o que parece e você também sabe disso.

– Percebo muita impertinência no seu tom de voz, macaco! – disse o anjo se inflamando.

– Diga-me uma coisa, senhor anjo que ainda não se apresentou, é permitido a você mentir? – perguntou Charles.

– A mim é permitido tudo, desde que não vá de contra as leis de Deus – respondeu orgulhoso.

– E não é vontade de Deus que os anjos se curvem diante dos humanos? – provocou Charles.

– Não sei o que isto tem haver com o assunto em questão.

– Apenas responda a minha pergunta.

– Você fala como se Deus não fosse também superior a você.

– Não tente me enrolar!

– Nunca ouvi do Senhor Deus tal ordem, macaco – o anjo já mostrava certa impaciência.

– Então não é verdade que Lúcifer caiu por se negar servir aos homens? – Charles continuava a questionar.

– E o que isto tem haver com me curvar diante de ti?

– Se negar a fazer isto não é ser orgulhoso? – Charles enfrentava o anjo, mas suava frio.

– Esta bem, eu me curvo diante de você Charles Betkowski – e o fez, o anjo, do alto de todo o seu esplendor pondo seus pés no chão, que até então flutuavam no ar. E se aproveitando de que o anjo estava de cabeça baixa Charles apontou sua garrucha e puxou o gatilho. Então a tal arma mostra sua real característica que é um lançador de redes de prata. A mesma que prendera o pai íncubo o impedindo de fugir. A rede cobriu completamente o anjo que com o impulso do disparo foi arremessado para trás. O jovem aproveitou o momento e correu porta a fora.

– Ora seu verme desprezível! Você irá me pagar por isso! – então o anjo com pouco espaço para se mover não conseguia se livrar daquela rede “mágica”.

Charles corria pelas escadas, subia para o térreo de sua casa. O rapaz não sabia o quão eficaz seu invento era contra anjos, e não ficaria por perto para descobrir.

Cruzando o jardim aproximou-se de seu automóvel americano modificado com uma enorme caldeira Hilmac. Era mais uma das suas engenhocas. O veículo era movido à combustão como qualquer Benz Velo, mas a caldeira servia como um propulsor a mais. Quando dava partida no carro, automaticamente acendia o fogo da caldeira. Obviamente levaria tempo para esta se aquecer, portanto o automóvel ganhava velocidade gradativa e exponencialmente.

Mais do que em qualquer momento Charles agradecia a queda da maldita lei da bandeira vermelha. O automóvel cortava as ruas com tudo o que tinha. Sabia que precisava recarregar sua arma então esperou uma reta e soltou o volante. Sua garrucha era de dois tiros apenas, amaldiçoou sua limitação, mas logo reconsiderou posto que a pouco fora o bastante para salvá-lo.

Fugir! Naquele momento era só o que conseguia pensar, logo ele que tinha pensamentos inventivos a todo instante. Precisava estar pronto caso alguma criatura alada tentasse interceptá-lo. Ele precisava decidir para onde ir, então pegou novamente o volante e tomou a estrada para Londres onde poderia pedir abrigo à Lady Danielle.

Fim da primeira parte

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