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Meu nome é Simara

“Vivo” hoje em um estado de consciência muito diferente de um tempo atrás, antes de vir para cá. E também não consigo precisar há quanto tempo estou nessa condição, pois aqui, nesse lugar, o qual sequer consigo descrever, em muito pouco se parece com uma casa, já que não têm janelas ou portas, nem TV ou rádio, ou nenhuma ligação com o mundo exterior ao ponto de eu não ter qualquer referência de tempo. Mal consigo lembrar das coisas. Parece que quanto mais fico nesse lugar menos lembranças consigo reter. Escrevo essas linhas com a intenção de organizar minhas ideias e tentar, mesmo que de forma vã, segurar o pouco de lembranças que me restam. A coisa mais forte que tenho em mim é que vim para cá com um propósito. Uma missão que impus a mim mesma, a de “salvar meu irmão”. Digo irmão porque sempre foi assim que construí essa frase, mas admito já não ter mais recordações dele. Bem poderia ser uma irmã, acho que tive uma irmã, na verdade tenho a sensação de que tive alguns irmãos e irmãs, mas seus rostos e nomes não passam de vultos desconexos, mas sei que estou aqui por causa de um irmão menor. Sei que é menor, embora eu não seja capaz de explicar de onde tiro tanta certeza.

Também me lembro de um padre, mas já não sei se o conheci ou se apenas sonhei com ele, pois admito já não saber mais quando estou acordada ou dormindo, se é que isso faz alguma diferença, mas no caso desse padre, ao contrário dos rostos dos meus possíveis irmãos, ele possui dois rostos. Não duas cabeças, é uma cabeça só, mas hora me lembro dele jovem e bonito, outra hora como um velhinho, sempre com um ar gentil e amistoso, embora quando velho sempre se apresente preocupado. Por falar em padre, já não sei mais fazer orações, parece que esqueci como se começa. Lembro de trechos de uma prece, mas não consigo mais colocá-las numa ordem que me pareça familiar. Sei que tem um “Orai por nós” e um “Vosso nome”, mas penso que está errado, pois se sou eu quem está orando, como poderia pedir em oração que outro alguém, cujo nome não sei, poderia orar por nós, ou melhor, por mim? Toda vez que penso em rezar sinto uma dor profunda e acabo por desistir.

Tenho a sensação de que já escrevi antes. De que já tentei outras vezes fazer o mesmo que faço agora. É o sentimento de que estou escrevendo a mesma frase repetidas vezes num quadro negro, embora eu esteja convicta de que reler o que já escrevi acima é um erro fatal e não me atrevo a fazê-lo. Tenho a certeza de que só posso continuar e nunca voltar, pois perderei tudo e terei que recomeçar. Como se tudo o que já fora escrito antes se apagasse ou virassem linhas tortas e ilegíveis. Por isso penso que estou sonhando.

Às vezes me pergunto se tenho pais. Sempre que penso nisso alguns casais se formam diante de mim, mas nunca me vejo, sempre é outra criança que está entre eles, seriam meus irmãos? Já não sei mais. Mas também me vêm imagens de uma mulher rigorosa arrumando uma criança como se a preparasse pra uma missa ou para receber uma visita importante, a lhe encher de recomendações. Eu vejo essa cena de longe, pela porta da cozinha onde eu lavo a louça de um almoço pobre, pois me lembro da fome que eu ainda sentia em meu estômago. Essa é, talvez, a lembrança mais valiosa que eu tenha, embora não tenha nada de memorável nela.

SIMARA, esse é meu nome. Sempre que lembro disso me obrigo a escrevê-lo imediatamente, pois não quero perdê-lo de novo. SIMARA é meu nome. Eu adoraria dizer muito prazer para alguém, mas não interajo com ninguém há muito tempo. Só assisto fragmentos de lembranças como quem vê um programa na televisão, mas parece que a programação esta cada vez menor. Sinto outra vez que estou me repetindo, mas como eu disse, ou acho que disse, reler é um risco ao qual não me atrevo a correr. SIMARA, porque nunca me parece demais repetir! SIMARA me parece um bom nome, acho que tenho sorte, poderia ser um nome feio. Pensar em um nome bonito me faz sentir bonita, pois me parece que é só o que me lembro de mim mesma. Não me vejo num espelho há tanto tempo que sequer consigo lembrar como sou. SIMARA!

Eu lembro agora de um irmão. Acho que estou aqui por causa dele, mas não sei mais como encontrá-lo. Talvez o padre possa me ajudar, mas já não sei mais rezar, como poderei então ser salva? Eu caí na mesma cilada que meu irmão? Pensando agora nele, e tentando lembrar do padre, acho que ele me disse “Seu irmão está morto”. E quando penso nisso, me lembro de um cemitério, será que eu estou morta também? Não é possível! Mas pensando bem, e se for? E se estou escrevendo isso com o intuito de organizar minhas ideias, e se eu já escrevi sobre isso antes? Se for assim, talvez eu encontre a resposta em páginas anteriores. Mas sei que se o fizer, poderei perder tudo. SIMARA, meu nome é SIMARA. Enquanto eu me lembrar disso ainda terei forças, embora eu preferisse saber rezar.

 

Ronaldo Santana

inspirado no conto Crianças à venda. Tratar aqui

do livro Sete ossos e uma maldição

de Rosa Amanda Strausz

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