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O Roubo do Freezer

Era por volta de 01:20hs da madrugada. Eu ainda estava acordado, deitado no colchão no chão do quarto. Minha cama havia quebrado há um mês e não tenho grana pra comprar uma nova. O trabalho é muito, mas a grana é pouca. Mal dá pra pagar as contas. Foi quando o Paulo, camarada, com quem divido o aluguel chegou com um sorriso bobo na cara e 3 potes de sorvete no colo molhando sua camisa vermelha. Vinha com um dos potes aberto e comendo.

– E aí seu pulha?

– Fala viado!

– Tá fazendo o que?

– O mesmo de ontem.

– Ah.

– E esses sorvetes? Manda um pra cá.

– Claro chapa. – Ele jogou um dos potes pra mim.

– Me dá uma colher porra!

– Olha só! Quer uma colher, seu merda? Levanta e pega na cozinha.

– AH, vai no dedo mesmo!

– Essa sua preguiça ainda vai matar nós dois.

– Hunf!

Ele foi até a cozinha e o ouvi abrindo a geladeira. Estava guardando os outros potes. Quando voltou me jogou uma colher.

– Bom garoto! – eu agradeci.

– Sabe quanto paguei por esses sorvetes?

– Barato ou caro?

– Muito barato.

– Sei lá!

– Chuta!

– 3 pratas cada!

– Desiste, não paguei nada.

– Quem te deu?

– Escuta só. Estava voltando pra casa quando passei por uma sorveteria extremamente pequena. Mínima. Era só uma “portinha”, estava com a porta de ferro abaixada, mas aí é que está. Não estava trancada. Havia um espaço assim (me mostrou quatro dedos) entre a porta e o chão. A luz estava acesa. Não tinha ninguém na rua então parei em frente e fiquei escutando. Queria saber se ainda tinha alguém lá dentro. Não ouvi nada, então me abaixei até o chão pra tentar ver algo, era baixo demais, não pude ver nada, então olhei pros lados e levantei a porta.

– Caralho! – eu reagi.

– Lá dentro, só tinha um freezer e um banquinho. Abri o freezer e peguei esses potes de sorvete. Baixei a porta e vim pra casa.

– Tá maluco cara. Você roubou.

– Fala sério, foram só três potes de sorvete. Nem vão sentir falta, mas podem sentir falta do freezer alguém ainda pode roubá-lo. Seu carro tá aí embaixo, não tá?

– hehehehe. Não tá falando sério, está?

– Por que não? Tá lá, dando sopa. E nós estamos quebrados de grana. Podemos pegar o freezer e vende-lo. Sem contar os sorvetes que teremos. Tinha muita coisa lá cara.

– Vai se fuder!

– Qual é, alguém vai roubá-lo, pode ter certeza. Os donos já perderam aquele freezer cara. A única diferença é que ao invés de serem outros caras, podemos ser nós dois.

– Vambora, levanta daí. – Ele começou a me puxar pelo braço.

– Tá bom, vamos nessa, então.

Era realmente perto de casa. Peguei a caminhonete e fomos até lá. A porta estava como ele tinha dito, talvez um pouco mais alta. Eu fiquei parado olhando pros lados enquanto o Paulo todo confiante se dirigiu até a porta de metal. A levantou de uma vez só. Lá dentro estava o freezer e mais dois negões que ficaram surpresos com a gente.

– Caralho, que merda! – disse eu entrando na caminhonete.

O paulo também correu pra dentro e saímos fora de lá antes mesmo que os negões pusessem as cabeças pra fora da loja.

– Seu filho da puta, eles viram a gente. Eu já vi esses porras. Moram do outro lado da rua. Estão sempre por aqui.

– Porra, eu falei que iam roubar o freezer. Se tivéssemos chegado antes ele ia ser nosso. Como vão tirar o freezer de lá? Carregar nas costas?

– Foda-se! A merda é que eles sabem que tentamos roubar o freezer, estamos fodidos, podem arrumar alguma merda pra gente, seu filho da puta. Tinha que arrumar idéia de roubar o freezer dos outros!

– Para de chorar, caralho!

Então voltamos pra casa. Eu continuei xingando o Paulo por um mês. Os tais negões, nunca mais vimos. Mas a sorveteria fechou.

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