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“SÚCUBO” Capítulo 1

19 fevereiro 2011

– Posso começar?
– Por favor!

– Estou caminhando em um lugar com estrada de chão e o céu é escuro com nuvens carregadas, como uma noite nublada, entende?

– Uhum!

– É um lugar com uma aparência horrível, com cheiro de morte e é morte antiga. Um cheiro de carniça e de sangue coagulado. No chão tenho a impressão de ver, entre a névoa, rostos. Rostos angustiados e cheios de dor. Seguindo uma trilha me aproximo de uma ponte e a distância vejo criaturas estranhas torturando gente que grita incessantemente. Evito olhar, mas é difícil, pois os gritos são fortes demais e mal consigo pensar. Continuo meu caminho. Eu sou um homem negro com uma roupa comprida como uma capa, ou algo assim. Uso calças brancas e sapatos de couro. À minha frente consigo ver então um castelo entre a névoa que se dissipa conforme me aproximo. É um castelo cujas torres possuem a forma de… bem, é difícil dizer, mas… as torres possuem formas de pênis gigantes com janelas redondas e pedaços de gente. Pedaços estes que parecem ainda vivos, igual a tudo neste lugar. Essa aparência agonizante me deixa nervoso e me obriga a andar cada vez mais rápido. E é para lá, para este castelo que me dirijo.

Chego à porta. Duas portas grandes com vidros que me deixam ver um pouco do que há lá dentro. Tipo um restaurante, ou coisa assim. E ao me aproximar elas se abrem sem eu precisar fazer um gesto sequer. Como se estivesse sendo esperado. Sou recepcionado por uma mulher nua com seios firmes e de aparência jovem, com chifres e asas de morcegos. Um demônio.

– Você está no inferno?

– Sim, me parece que sim.

– Continue.

– Essa mulher está me olhando como se não gostasse de ninguém, como se a presença de qualquer pessoa a irritasse. Era um olhar de ódio, que me incomodava muito. Parecia que odiava seu trabalho, sua vida e tudo à sua volta. Da porta podia-se ver o hall, cheio de mesas, um típico saloon de filmes de faroeste, mas não se via bebida ou comida nas mesas. Só gente e demônios. Homens e mulheres todos eles transando sobre as mesas, no chão, pelas paredes, nas escadas, por todos os lados se via gente transando com demônios. Em todo tipo de posição e com números variados de parceiros.

Vi duas escadas centrais. Achei que no segundo andar haveriam quartos. Andei até a da esquerda e subi. Uma mulher transava com um demônio. Ele a pegava por trás, ocupando os degraus. Não precisei pedir licença para passar, mas não tinha como evitá-los. Segui até um dos quartos. A maçaneta da porta era uma mandíbula humana. Segurei-a e puxei. Lá dentro um quarto de paredes manchadas e sujas com uma penteadeira, uma poltrona e uma cama baixa coberta com longas colchas limpas que iam até o chão. Uma mulher de cabelos pretos e curtos que transava com dois homens ao mesmo tempo. Eles sumiram quando entrei no quarto e então ela me olhou com o rosto cheio de “porra”, tudo bem eu falar assim?

– Tudo bem!

– Então me aproximei dela tirando a roupa e começamos… preciso dizer os detalhes?

– Se achar necessário.

– Não, não acho.

– Então pode pular isso.

– Pois bem, transamos um bocado e depois disso ela ficou sentada na janela redonda. Na verdade era só um buraco redondo que servia como janela. Agora vinha luz lá de fora. Uma luz bem forte que parecia agradar a ela. Não sorria, mas parecia contente de certa forma. Eu fiquei sentado na poltrona ainda sem roupas. A luz não chegava a incomodar meus olhos muito embora fosse forte. Conversamos, agora não me lembro sobre o quê, mas ela não sorriu uma vez sequer.

– Isso o incomodou?

– Não, ela tinha algo de familiar, embora não a conhecesse. Digo, no mundo real.

– Entendi.

– Eu disse que ia embora e me levantei. Ela apenas olhou para mim e disse algo que não consigo lembrar. Algo como uma jura de amor e uma despedida. Não sei bem! Então eu acordei. E foi isso.

– Interessante!

– Então, o que acha que esse sonho pode significar? – me viro agora para o psicólogo, este homem de seus quarenta com terno marrom e sem gravata. Sentado em sua poltrona de camurça marrom escuro e bloco de notas, pousado na coxa direita. Ele possui o ar confiante que todo psicólogo procura demonstrar. E é atrás dessa auto-confiança que vim até aqui.

– Bem senhor Marcos, sem dúvida é um sonho bem confuso. Cheio de detalhes que o senhor possa considerar estranhos, na verdade rico em detalhes, mas não acredito que tenha sido uma viagem como a de Dante. E sim apenas um sonho erótico.

– Tá querendo dizer que não devo me preocupar?

– Por que deveria?

– Eu tive uma visão do inferno, pensei que isso significasse alguma coisa. – neste momento me levanto da poltrona reclinável.

– Talvez seja alguma perturbação na sua vida amorosa que o esteja preocupando ou deixando-o tenso. Talvez esteja com problemas em seu relacionamento com… o senhor é casado ou possui alguma namorada?

– Não, não estou namorando.

– Talvez seja isso, então!

– Tá me dizendo que eu tive um sonho em que sou um negão visitando o inferno. Venho até aqui, perco meu horário de almoço. Gasto 80 pratas pra ter um esclarecimento e o senhor me chama de punheteiro? Pois muito bem senhor doutor escroto do caralho! Pegue seus “80 conto” e enfie no cu!

Peguei meu envelope na mesa de centro, bati a porta atrás de mim e fui embora. A atendente na recepção me olha espantada, mas não diz nada. Desço as escadas do consultório puto da vida e chego à rua.

– Merda, perdi meu almoço! Tô cheio de fome e ainda não entreguei essa porra. Gastei dinheiro à rodo, e pra nada. Antes tivesse ido num puteiro e comido uma gostosa. Punheteiro, ah, num fode! Um cara estuda pacas se diz especialista em comportamento humano e o diabo. Eu conto meu sonho sinistro e ele me chama de punheteiro. Puta que pariu, pobre tem mais é que se foder mesmo! Agora tenho que voltar correndo pro trabalho. Ih, não! Tenho que entregar esta merda primeiro. – olho o envelope pardo na minha mão. Pelo menos é aqui no centro mesmo. Mas que filho da puta do caralho, esse cara!

Continuo andando pela calçada em direção ao endereço do envelope. Minha revolta é tanta que as pessoas em volta não conseguem evitar me olhar falando sozinho.

Súcubo

3 Comments to ““SÚCUBO” Capítulo 1”

  1. Ahahhahaa. Gostei bastante da mudança no desenvolver da história, de um conto +18 para um cidadão revoltado. Muito bom. Inclusive as ilustrações.

  2. acabei de encontrar teu blog, mantenha o bom trabalho.

  3. Oi amor .eu amei seu conto,me prendeu do começo ao fim. Gostaria que vc falace o que aconteceu depois que ele ficou preso pela sucubo no fínal
    passe uma mensagem meu telefone (91)83804415
    thal fofo

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