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“SÚCUBO” Capítulo 11

Segunda-feira, logo de manhã na empresa. Cecília, a assistente da diretora de marketing Brenda, chega a sua baia ao lado da de Helena, uma mulher jovem de cabelos curtos e pretos. Helena ainda é uma estagiária no setor, por isso procura ser bastante discreta e sendo nova no lugar ainda não se sente totalmente àvontade para conversar certos assuntos. Já Cecília possui uma personalidade um pouco mais descontraída e os dois anos de casa lhe dão mais segurança para falar de seus superiores. A novidade é a missa de sétimo dia da morte de Voliner Upeck. Cecília se fez presente junto com sua chefa Brenda. Muito embora digam que Cecília não passe de uma puxa-saco, na verdade não é nada disso. As duas são realmente amigas, desde muito antes de trabalharem juntas.

– A tal sobrinha Catharina sequer entrou na igreja direito. Dizem que eram muito próximos. Alguns acharam a atitude dela curiosa. Eu achei a maior falta de respeito. – disse Cecília.

– Verdade. – Helena procura ser a mais política possível quando ocorrem esses comentários sobre superiores. Sabe que sua situação instável na empresa não lhe permite esse tipo de liberdade. Mas Cecília continua. Na verdade é o tipo de pessoa que não se importa se está sendo realmente ouvida, ela quer apenas falar. E Helena se prontifica a fingir que a ouve.

– Mas te digo uma coisa. Apareceu um rapaz de farda, muito bonito, e ficaram conversando. Ela me pareceu muito contente ao vê-lo. E sabe o que é mais estranho?

– Não.

– Se parecia com o Marcos da correspondência.

– Mesmo? – Helena dá uma entonação ao seu “Mesmo” de forma que faz Cecília acreditar que existe um real interesse de sua parte em ouvir o resto da história.

– É sim, eu poderia jurar que era ele. Só que estava de barba feita. Se ele aparecer hoje de barba feita pode ter certeza que era ele.

– Vou prestar atenção quando ele aparecer. – como se fosse mesmo! – pensou Helena.

Em pouco tempo todo o setor já estava atualizado com as novas do fim de semana. Cecília era realmente eficiente jornalista, muito mais que assistente de marketing. Foi por volta de 10:15hs que Marcos deu as caras no setor. E todas, com exceção de Helena que de fato estava mais preocupada com sua produção, ficaram de olho para o detalhe da barba feita. Os cabelos continuavam despenteados, mas a barba havia sido aparada e isso já lhe dava um aspecto mais arrumado. Marcos não percebeu os olhares, pois as mulheres são bem mais discretas do que os homens quando fazem isso. Só se deu conta de que o olhavam quando entregava a correspondência e a maioria o recebia com um sorriso malicioso. Até mesmo seus “Bom dia” continham malícia. Marcos não possuía amizades naquele setor, por isso permaneceu em silêncio.

Marcos seguiu para o próximo andar, o 6º. O andar em que Catharina trabalhava. Ficou nervoso, pois cruzaria olhares com ela novamente. Aqueles olhos azuis que remetem a algo frio, mas os delas continham um calor que o deixava nervoso. Se a encontrasse, o que diria? Como falaria com ela? Agiria normalmente como age com todos naquela empresa? Seria com mais respeito, afinal era uma das grandes ali dentro, ou seria com mais intimidade? De fato, conversaram tão intimamente no sábado, muito embora o assunto fosse deveras estranho. E no domingo havia ligado para ele. Dera-se ao trabalho de procurar seu telefone só para perguntar como estava. Marcos ainda não sabia, ou se sentira seguro para dizer que tipo de relacionamento possuíam.

Marcos viu seu reflexo no vidro e penteou os cabelos com os dedos. Ajeitou a gola do camisão limpo. Estava nervoso. Suas mãos suavam. Ele as secou nas calças jeans. Avistou a porta da sala. Possuía uma janela que permitia que se visse por dentro. Fechou os olhos por um instante e empurrou o carrinho. Quando abriu os olhos percebeu que de nada valera toda sua preocupação. Pois ela não estava na sala. Ninguém estava. Mas viu seu blaiser sobre as costas da cadeira. Ou seja. Estava na empresa. Talvez tivesse ido ao banheiro, ou pegar um pouco de café. Só tinha uma carta para ser entregue naquele andar e já estava separada. Marcos decide entregá-la rápido e voltar para seu segundo andar, seu refúgio, e esquecer aquela mulher antes que o visse andando pelos corredores e o abordasse. Então pegou a carta e se aproximou da baia de um homem gordo que usava óculos e uma estatueta de algum personagem de desenho animado que não reconhecia sobre sua mesa. Entregou e voltou para seu carrinho. Empurrou-o até o elevador. Enquanto as portas se fechavam, viu Catharina voltando para sua sala com uma blusa branca que realçavam o volume de seus seios, mas foi só o que conseguiu ver antes que a porta se fechasse por completo.

Fechou seus olhos e amaldiçoou a si mesmo por não ter coragem de encará-la de novo. Ele não merecia aquela mulher. Era um covarde que sequer conseguia encarar uma mulher bonita que se interessara por ele. Lembrou mais uma vez daqueles seios fartos cobertos por aquele pano fino e fofo que não definiam o formato dos seios, apenas o volume deles.

“Você não merece aquilo, Marcos. Você merece uma mulher feia e sem graça. Merece uma mulher insegura que precise de você. Não de uma mulher como Catharina. Não uma mulher que adora o próprio demônio. Ela era tão forte e tão bonita que até mesmo o próprio diabo se entregaria a seus carinhos. O diabo pareceria um gatinho em seu colo. Catharina era esta mulher incrível que escreve seu próprio destino. Uma mulher tão segura de si que se expõe com orgulho ao mundo. Pois sabe que é uma rainha. Não é como você Marcos, seu covarde idiota, que merece se relacionar com garotas submissas. Catharina não é o tipo de mulher que fica em casa fazendo comida e engordando enquanto espera o marido chegar do trabalho. E se ajoelha diante de seus pés implorando por sua atenção ao ouvi-la dizer o preço dos tomates ou que o papel higiênico estava na promoção e que lhe economizara dez pratas. Não, não Catharina. Isso não era vida para aquela mulher. E não falo do fato de ser rica. E sim por ter personalidade. Por ser forte. Definitivamente não era mulher para um Marcos. Eu deveria esquecê-la. Deveria evitar olhar seus olhos azuis cheios de calor e fervor pela vida! Pois olhar aqueles olhos me faria lembrar do quão pequeno eu sou. A porta do elevador se abre e estou no segundo andar novamente. Encosto o carrinho vazio no canto reservado a ele e vejo a pilha de contas a pagar e depósitos bancários.”

– Viu, Marcos, você é o cara que enfrenta as filas dos bancos enquanto Catharina bebe café em sua sala de executiva com vista para o mar.

“Então me senti um personagem de novela mexicana. E isso mais uma vez me colocava em meu devido lugar, pois uma mulher como Catharina sequer deveria ver televisão. Peguei as contas e mais uma vez peguei o elevador.”

– Deve “tá “um calor do caralho lá fora!

Súcubo

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