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“SÚCUBO” Capítulo 14

Ao abrir os olhos a primeira coisa que vê é o encontro do teto com a parede do quarto. Reconhece aquele canto. Não precisaria sequer olhar mais nada para reconhecê-lo. Conhecia cada centímetro daquele quarto como conhecia a si mesma. Foram muitas e muitas noites a olhar aqueles cantos até conseguir dormir. Sempre teve problemas para cair no sono. Se acreditasse em Deus talvez rezar lhe ajudasse, mas preces não faziam parte de seus hábitos. Continuou a fitar aquele mesmo canto do quarto durante alguns minutos sem se preocupar em mover um músculo sequer de seu corpo. Não pensava em mais nada além daquele pedaço escuro de concreto. Então desceu o olhar reconhecendo suas cortinas e viu as luzes do prédio vizinho piscando do lado de fora e sorriu. Sentiu uma estranha alegria ao ver aquelas luzes tão familiares. Moveu mais uma vez a cabeça na direção de sua cama e viu um corpo dormindo, totalmente desnudo, livre das cobertas. Eram pernas de homem. Então viu o rosto, era Marcos. Sim, era Marcos e só então se deu conta de que estava nua sentada no canto ao lado da porta do banheiro. Tinha uma toalha em sua mão esquerda. Catharina olha suas pernas e suas mãos e então a felicidade toma conta de sua alma. Seu corpo respondia às suas vontades. Tentou se levantar e sentiu o músculo da perna retrair. A dor da cãimbra a fez ver estrelas. Mas ao se dar conta que sentira dor sorriu. Ela sentia seu corpo. Ela era dona de si mesma mais uma vez e isso era melhor que qualquer coisa que pudesse se lembrar, não conseguiu nem ao menos criar uma lista em sua mente de coisas tão maravilhosas quanto.

Começou a fazer massagens em sua perna, esperando a cãimbra passar. Então mais uma vez se deu conta do corpo em sua cama. Ela olhava pra tudo. Para a mão do jovem, pendendo da cama. A luz da rua sobre seus cabelos desarrumados. Olhou seu sexo retraído e flácido. Olhou seus pés e vira que as unhas precisavam ser cortadas. A dor na perna diminuía e ela já conseguia se levantar. Colocava o pé no chão com cuidado, mas já podia andar. Apenas formigava. Catharina não sabia o que fazer. Então lhe passou pela cabeça que precisava se vestir.

– Não, isso pode esperar.

“Preciso fazer alguma coisa sobre esse rapaz. Ele não pode ficar aqui. Não posso ficar com ele. É tudo por causa dele. Ele é o responsável por tudo isso. Não, ele não sabe de nada. Vervelra que é louca. Mas é por causa dele que ela fez isso comigo. Ela não se importa com mais ninguém, só com ele. É claro, ela é um demônio. Não se importa com ninguém a não ser consigo mesma. Vou matá-lo. Isso, se ele estiver morto ela não tem por que vir me usar. Estarei livre dela se ele estiver morto. É claro. Ele precisa morrer. Mas eu não posso matar uma pessoa. Serei presa por isso. Não, não posso amarelar. Preciso ser esperta. É só fazer direito. Ele transou comigo, deve ter resquícios do meu corpo nele. Preciso lavá-lo, mas se ele acordar durante o banho? Não, não vai dar certo. Preciso de uma arma, mas não tenho nenhuma. Não tenho como conseguir uma arma. Uma faca. Na cozinha.

Então ela segue para a cozinha. Procura por uma faca. A maior e mais afiada. Encontra uma.

– Isso! É isso!

E volta correndo para o quarto. Preciso matá-lo, mas como vou tirá-lo daqui? Não estou em condições de dirigir. Não posso chamar um táxi. Não vai dar certo. Preciso de ajuda, mas não posso perder tempo. Ele pode acordar e então tudo vai estar perdido. – Então ela sobe sobre o corpo de Marcos. Evita tocar seu pênis e se posiciona sobre seu pescoço.

– É, se degolar ele vai morrer com certeza. É só cortar a garganta e ele morre. Não tem como sobreviver a isso! Não tem como. Mas como vou tirá-lo daqui? Preciso de ajuda. Celso? Não, não posso confiar nele.

– Lucas? Isso! É isso! Lucas, claro, quem mais? Faz isso o tempo todo. Lucas! – e sai de cima de Marcos com a certeza de que Lucas irá ajudá-la. Basta ligar e ele virá ajudar. Ele é quem faz os sacrifícios para o grupo. Matar para ele é normal.Faz isso o tempo todo. Ele com certeza se livraria do corpo sem deixar pistas. Ela não saberia como, mas ele sim. Então se deu conta de que não podia simplesmente deixar Marcos deitado em sua cama. Ele podia acordar. Estava cansado, é verdade, mas não poderia correr riscos. Lucas precisaria de tempo para chegar. Ela pensou em amarrá-lo. Não tinha cordas, então pegou lençóis no armário e amarrou os braços e pernas de Marcos na cabeceira e pé da cama. Teve medo de não ter amarrado forte o bastante, mas não podia fazer mais nada. Correu para o telefone. Sua caderneta estava ao lado. Procurou por Lucas e ligou. Tocou quatro vezes e ela já estava chorando. Então uma voz atendeu ao telefone. Catharina nunca havia falado com Lucas por telefone então não saberia reconhecer sua voz. Só possuía seu telefone por uma questão de etiqueta.

– Alô! – disse a voz do outro lado.

– Lucas?

– Sim.

– Aqui é Catharina, preciso de você!

– Catharina?

– Isso, sobrinha do Volnier. Do grupo, tá lembrado?

– Sei quem é você.

– Preciso de sua ajuda! Preciso que venha em meu apartamento agora!

– Onde fica? – Lucas possuía uma voz seca e inexpressiva.

– Rua Elemental 85. Apartamento 502.

– Estou aí em seis minutos. – desligou.

Catharina suspira com alívio. Então percebe que precisa vigiar Marcos e volta correndo para seu quarto. Ele ainda dormia. Completamente esticado na cama com os braços e pernas abertos. Ela precisaria fingir caso ele acordasse até Lucas chegar. Fingiria uma tara perversa e confundiria Marcos. Claro! Ele não desconfiaria de nada. Só precisaria fingir que era Vervelra e manter-se calma até Lucas chegar. Pensou mais uma vez em si vestir, mas se ele acordasse ela precisaria estar nua. Precisaria ser convincente. Mas Lucas não pode me ver assim. Preciso me vestir! E foi até seu armário. Pegou lingerie e calças jeans. Vestiu uma camisa de manga preta e esperou por Lucas. Não contou o tempo desde que desligou o telefone, mas não demorou até que a campainha tocasse. Ela correu e lá estava aquele rapaz de 25 anos de corpo franzino vestindo jeans e uma camisa listrada de mangas dobradas até os cotovelos. Os olhos dele eram assustadores, mas para Catharina foi um alívio vê-los, embora sentisse a luta do próprio corpo para manter o coração dentro do peito.

– Entra, Lucas! – e puxou o rapaz para dentro.

– O que você quer?

– Venha até meu quarto. – e agarrando o braço de Lucas o puxa pela sala e quarto adentro.

Lucas olha Marcos amarrado na cama.

– O que quer que eu faça?

– Preciso que o mate e se livre do corpo. Pode fazer isso?

– São cinco andares.

– E daí?

– Preciso de algumas coisas. Estão no carro. Tem carrinho de supermercado no prédio?

– Tem um na garagem.

– Então você desce e pega enquanto eu pego minhas coisas no carro.

– Mas… vamos deixá-lo sozinho?

– Está bem amarrado.

– E se ele acordar e gritar?

Lucas olha a sua volta e vê a faca no chão. Ele a pega e, sem cerimônia alguma, crava no peito de Marcos na altura do coração. Catharina não acredita no que vê. Foi uma estocada até o cabo da faca e não jorrou sangue.

– Agora vamos descer e você pega o carrinho.

Neste exato momento em que a faca é cravada no peito de Marcos, no inferno as correntes que prendiam suas mãos e pernas se partem, deixando-o livre.  De seu corpo nu, flagelado pelo galho de árvore, escorre sangue. Mas ele sabe que não pode perder tempo. Sabe que está livre e que precisa fugir. Mesmo sem saber como. Então começa a correr sem rumo. Ele vê uma luz bem fraca no topo de um paredão de pedra. E acredita que aquele é o caminho que deve seguir. Que aquela luz é o seu objetivo. Que se chegar até lá estará a salvo. Então corre com todas as forças, ignorando as dores em seu corpo machucado. Não sabia para onde Vervelra tinha ido, mas sabia que não demoraria. E que precisava fugir dela antes que o prendesse de novo. Seus pés descalços doíam por pisar naquele chão de pedras pontudas. Uma limitação de nós, pessoas, por andarmos sempre calçados. Mas não podia parar por causa de dores nos pés. Era sua chance. Ele sairia daquela situação. Por Deus que sairia.

– Eu vou sair daqui, por Deus que vou!

Então chega ao pé do paredão. Realmente íngreme, mas as pedras eram irregulares e com frestas permitindo ser escalada. Subia e subia. Sua vontade de sair daquele lugar era tanta que já não sentia mais dores. Sua vontade era todo combustível de que precisava. Então ouviu a voz de Vervelra abaixo de si.

– Ora seu filho da puta! Você não vai conseguir!

Marcos olha para baixo e a vê de pé em frente ao paredão, a vários metros de distância. Sentiu medo, mas não podia desistir, era sua chance. Talvez não tivesse outra. Era agora ou nunca, ele pensou. Vou conseguir, preciso conseguir. Por Deus que preciso. Deus, me ajude! E continuo a escalar. Então ouviu o bater das asas de Vervelra. E aquele som trazia desespero para sua alma. Não conseguiria. Ela o pegaria. Seu corpo ficou paralisado de medo e não conseguiu mais esticar o braço. Foi se curvando e as lágrimas rolando de seus olhos. Sentiu a brisa que as asas dela faziam ao se mover e depois foram seus braços o agarrando o peito. Estava tudo perdido. Fora pego.

– Não precisa ter medo de mim, não vou mais machucá-lo. Eu te quero, Marcos. Então ainda no ar ela bulina as genitálias de Marcos com a intenção de excitá-lo. Esfrega seus seios em seu corpo.

– Serei boa pra você, meu gostoso. Venha, chupe meus peitos. Serei boa pra você.

Então masturbou Marcos até sentir que o excitava e sentou-se sobre seu pênis. As feridas em seu corpo pararam de doer e começaram a cicatrizar.

– Serei muito boa pra você. Venha, aproveite, goze querido. Goze dentro de mim.

Na portaria, Catharina não precisava explicar por que precisava de um carrinho de compras às duas horas da manhã. A segurança naquele prédio era péssima, um verdadeiro milagre aquele prédio nunca ter sido assaltado. Nem os vigias tinham o hábito de fazer perguntas aos moradores. Ela apenas pegou o carrinho na garagem e entrou com ele pelo elevador de serviço. Estava nervosa, mas sabia que era o que deveria ser feito. Marcos já estava morto e ela estava livre. Só precisava se livrar do corpo e tudo estaria bem. A porta se abre no quinto andar. Ela empurra o carrinho até seu apartamento. Lucas ainda não havia subido de volta. Sentiu medo que ele a tivesse enganado e fugido. Mas tratou logo de retirar esse pensamento de sua cabeça. Afinal ele é quem tinha matado Marcos, não ela. Então ele volta com um saco preto de lixo dobrado sobre o braço e uma maleta de ferramentas na outra mão.

– Vá até a cozinha e faça café. Tudo vai terminar em alguns minutos. – ele disse.

– Está bem!

Ele põe a maleta de ferramentas e o saco no carrinho de supermercado e empurra até o quarto. Desaparecendo no corredor. Catharina vai a cozinha e sem raciocinar põe a água para ferver enquanto pega o pó de café na porta de cima da pia. Despeja o pó no filtro da cafeteira e espera que ela faça seu trabalho. Em pouco tempo escuta o grunhido do carrinho se arrastando pela sua sala. Nem os tapetes impedem que a roda sem óleo faça seu barulho irritante.

– O café ainda não está pronto.

– Então vamos esperar. – e posiciona o carrinho na porta de entrada do apartamento.

Catharina olha o saco de lixo e não consegue identificar um corpo. Lucas havia enrolado o corpo nos lençóis e ainda pegou mais no armário. Era uma trouxa de panos, era só o que conseguia se perceber. Lucas havia feito um trabalho muito bom e suas roupas estavam limpas.

– Quando eu sair você começa a empacotar suas coisas. Todas elas. Você irá se mudar. Não pode continuar aqui. Em uma hora estarei de volta e levarei algumas coisas a mais para a casa de seu tio. Amanhã de dia voltaremos com uns amigos e pegamos o resto. Se lhe perguntarem porque resolveu se mudar diz que quer ficar perto das coisas de seu tio. Que sente sua falta e que não há mais necessidade de morar aqui. Não se preocupe com o banheiro ainda, empacote o maior número de coisas que puder agora. Depois que eu voltar e sair com a sua mudança, você limpa o banheiro. Fará uma faxina completa. Tente dormir um pouco. E não beba do café.

– Está bem!

– O café já está pronto?

– Acho que sim, já vou pegar. – Catharina entra na cozinha e volta com uma xícara cheia.

– Obrigado. – Diz Lucas, com um sorriso educado no rosto antes de sorver a bebida . _ Você faz um ótimo café. Mas não beba dele. Quero que durma um pouco. Às seis estarei de volta com um carro maior.

– Não sei se vou conseguir dormir.

– Obrigado pelo café. Em uma hora estarei de volta. – e abriu a porta empurrando seu carrinho de roupa. Catharina não quis olhar para fora e apenas fechou a porta depois que Lucas saiu. Catharina não raciocinava, Lucas o havia feito por ela. Só precisava executar suas ordens. E começou pela sala mesmo.

Súcubo

One Comments to ““SÚCUBO” Capítulo 14”

  1. Oi amor nao me esqueça ta?

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