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“SÚCUCO” Capítulo 3

25 fevereiro 2011

Oito da noite na casa de Volnier Upeck. Uma casa pouco imponente para um homem de suas posses, mas ainda assim uma boa casa. Dois andares, com varanda e laterais cobertas por trepadeiras, muito bem cuidadas pelo jardineiro que faz seu trabalho todas as sextas-feiras sem falta.

Todos do grupo chegam pontualmente. O grupo é composto por 39 pessoas e esta noite reúnem-se em função da quadragésima. A recepção é feita na sala, e há uma certa frieza por parte da dona da casa. A sobrinha de Volnier, Catharina. Alguns ainda lhe prestam condolências pelo finado tio. Mas todos estão visivelmente animados esta noite. Afinal invocarão seu alto-sacerdote, do lugar pelo qual sempre tiveram total adoração. E ele sempre fora um homem admirado por todos ali presentes. Um homem de personalidade forte e um carisma absurdo. O tipo de pessoa notável em qualquer ambiente.

Volnier faleceu de um câncer que vinha controlando há vinte anos. Um homem forte e bem humorado. Sua doença nunca o fez questionar sua fé, nunca atribuiu sua doença a qualquer tipo de punição divina, ou algo do tipo. Tinha consciência dos males do cigarro e muito embora sua sobrinha tivesse insistido para que parasse, mesmo que o próprio diabo o ordenasse a parar, não conseguiria nunca. E quando foi detectado o tumor, então que ninguém mais o convenceria a parar. E enganam-se aqueles que pensam que fumava um atrás do outro. Volnier era o tipo que nunca fumaria perto de um não-fumante. Um homem de várias virtudes, sem dúvida.

Normalmente satanistas são pessoas egocêntricas e acreditam mesmo ser o centro do universo, isso se forem de um tipo gnóstico, onde buscam através de sua magia concentrar em si a divindade cósmica e ser ele mesmo Deus. Mas tem os satanistas de protesto que têm como ideologia a destruição no plano da fé, da humanidade e da estabilidade psíquica. Seriam os anticristo. Volnier não era arrogante, nem tampouco acreditava ele mesmo ter poder para ser Deus. “Um Deus que morre de câncer. Só podem estar brincando!”, é o que dizia. Ele acreditava em satanás, este sim era o verdadeiro Deus desse mundo. Era nisso em que ele acreditava e que trazia ao grupo.

Muitos estão excitados com a experiência desta noite, isso caso funcione, porque muito embora todos ali presentes acreditem piamente no que estão fazendo, poucas foram as vezes em que um ritual trouxe alguma comprovação de que o inferno realmente existisse, ou que Lúcifer estivesse olhando por eles. Mas as coisas que Volnier contava não poderiam ser invenções. Ele falava com inspiração e com uma paixão que deixava a todos emocionados.

O que não descobrirão através de Volnier? É incrível a diversidade de pensamentos entre essas 39 pessoas. Se quando entre eles já falava do inferno com tanta intimidade, o que dirá agora que vive definitivamente lá. E quanto a isso, não tinham a menor dúvida.

Catharina fala pouco. E basicamente recepciona seus amigos como seu tio o fazia, com menos humor, é claro. Característica natural de Volnier. Fala com todos, agradece a presença e faz um breve comentário sobre cada um dos presentes. Todos percebem que ela está se esforçando para fazer o melhor que pode. Que se esforça para ser merecedora do cargo que agora ocupa dentro daquele grupo. A liderança nunca fez parte de sua natureza. Catharina possui o perfil de pessoa que precisa de alguém para lhe dizer o que fazer,  precisa de alguém para nortear suas ações, nunca seria capaz de tomar uma decisão importante sozinha, mas agora precisava ser uma líder. E isso a apavorava. Sabia que não podia dar conta, mas tentava se convencer do contrário. Uma vez quando tinha 16 anos e teve seu primeiro relacionamento com um rapaz da escola, um dos mais populares, fez todas as suas vontades e era traída a olhos vistos. E mesmo sendo motivo de chacota não tinha coragem de desistir daquele rapaz. Somente depois que seu tio ficou sabendo da história e seguindo mais uma vez suas ordens, terminou o namoro. Catharina estava no grupo por causa de seu tio, e não por acreditar naquilo. Na verdade, Catharina acreditava apenas em seu tio. Ele era tudo que precisava para viver, o centro de sua Fé. E agora, como seria tomar suas próprias decisões? Se seu tio tivesse deixado o legado a outra pessoa, ela nunca teria questionado, sabia que não tinha talento para a coisa, mas como era desejo dele que ela o substituísse, com certeza não seria ela a questionar. Então buscava em sua memória como seu tio fazia.

Todos então vestem seus mantos e seguem para o subsolo onde sempre fazem seus rituais. Uma fila é feita para descer as escadas com Catharina à frente. Por último um rapaz de 25 anos, magro e de aspecto franzino. Seu nome é Lucas. Muitos o consideram doente mental, outros apenas um perturbado. Pouco sabem sobre ele, mas ainda assim é aceito. Volnier o trouxera pessoalmente para o grupo. É ele quem se encarrega dos sacrifícios. Ninguém sabe de onde ele veio, mas Volnier o tornou responsável oficial do grupo pelos sacrifícios. Esta noite é um cachorro de rua. Parece dopado nos braços de Lucas. Ele traz o animal como quem traz uma criança. Nem mesmo uma coleira, ou corrente para segurar. Ninguém questiona se o animal ainda vive ou não. Afinal, se o sacerdote nele confiava, não havia motivos para que os outros se preocupassem.

Ao chegar no subsolo, todos portando uma vela, cada um, posicionam-se em circulo. A ordem das pessoas é sempre estratégica de forma que cinco deles com velas maiores e de cor roxa ficam eqüidistantes o bastante para servir de referência para as pontas do pentagrama. Todos os outros portam velas menores de cor magenta. As roxas são poderosas e é difícil lidar com seu poder, elas buscam o contato espiritual. As de cor magenta possuem uma vibração muito forte e têm como intuito acelerar as ações. São apoio para as roxas.

Um membro segue até o centro do círculo imaginário e a traços de giz, risca o circulo aos pés dos outros membros, o circulo se fecha aos pés de Catharina, de onde parte a primeira ponta do pentagrama e onde se fecha após percorrer as outras extremidades. Feito o desenho, o membro volta a seu lugar e Lucas leva o sacrifício até o centro e retorna ao seu lugar. Este é o Umsessenheit, que quer dizer “cercado pelos demônios”. Catharina se aproxima com um punhal com inscrições em aramaico, mas poderia ser qualquer punhal. Pois nada tem de sacro, ou muito pelo contrário, de demoníaco. É apenas um punhal bonito e caro. Fazendo uso deste punhal Catharina precisa degolar o animal. Função essa que era destinada a seu tio e como sua primeira vez, não pode deixar de estar nervosa. Sua fronte sua, mas o capote encobre e ninguém percebe. Cada passo mais perto do sacrifício é aterrador, mesmo tendo presenciado inúmeros sacrifícios, nada se compara à sensação daquele ato. Segurando pelas orelhas ela puxa a cabeça do animal deixando o pescoço esticado. Ela se apavora com a idéia daqueles olhos se abrirem. O punhal em sua mão trêmula. Ela quer fechar os olhos, mas sabe que precisa deles abertos e estoca o punhal no pescoço. Não sai sangue algum, mas quando começa a cortar o pescoço o sangue jorra sem parar. A vontade de terminar logo a faz cortar com pressa e o nervosismo a faz chorar. Ela consegue e o corpo do cão tomba enquanto a cabeça permanece na mão da jovem. Ela larga a cabeça sobre o corpo e retorna a seu posto. Todos pousam suas velas sobre o giz. Catharina ainda nervosa explica o ritual! Isso é feito sempre. É um ritual bem simples que consiste em pedir permissão ao porteiro, que nunca é o mesmo, para que abra os portões e permita que os deixem entrar, ou que ao menos permita que alguém possa sair para que se comuniquem e conheçam os domínios do inferno. O sacrifício é necessário para, caso, algum demônio ou espírito precise se apropriar de um corpo. E a degola é uma garantia de que o demônio não consiga permanecer em nosso mundo. Se uma das velas roxas se apaga o ritual é quebrado e o demônio retorna ao inferno.

A diferença do ritual de hoje é que ao pedir permissão ao porteiro eles se concentram em Volnier. Que especialmente para Catharina seria o seu verdadeiro Deus.

Se todas as velas se apagarem é porque funcionou. Pois como se trata de um lugar fechado, a possibilidade de uma corrente de ar é descartada. Na verdade foram poucas as vezes em que essas velas se apagaram. E quando ocorreu, o sacrifício manteve-se intacto. Mas alguns do grupo sempre passam por essa experiência com alguma confirmação muito pessoal de que aquilo tudo funciona e que se trata sim, de um contato com o inferno.

O ritual leva em torno de meia hora até que todas as velas se apagam deixando tudo escuro e todos em silêncio. Catharina não se contêm e grita: “É ele!”

Quem me chama?

– Quem está aí?

Antes me diga quem é você!

– Sou Catharina Upeck

Catharina.

– E você, quem é? Não é a voz de meu tio.

– Não sou seu tio, isso é verdade. Você é uma mulher, não é? Reconheço pela sua voz. Uma bela voz. Espero que seja tão bonita quanto sua voz.

– Quem é você, por favor, me diga!

– Não tente me dar ordens, não tenho que obedecer às suas vontades. Digo-lhe quem sou se quiser. Você sim é quem deve me servir. Percorri as almas de todos neste círculo e parei em você. De todos você é a única que me serve.

– Não entendo.

– Eu sei que não, e nem precisa! Teremos tempo para conversarmos depois.

Depois veio o silêncio e as velas reacendem sozinhas. O sacrifício ainda está como antes, como todas as outras vezes se manteve intacto, mas Catharina está deitada ao chão desacordada. Leva alguns minutos até que alguém tenha coragem de se aproximar.

Minutos depois Catharina acorda no sofá da sala.

– Ó Catharina, você acordou. Que susto você nos deu menina!

– O que aconteceu?

– Você desmaiou. Deve ter ficado muito impressionada quando as velas se apagaram. Pegue, beba isso!

– O que é?

– Licor, foi meu sobrinho que trouxe para mim.

– Então não funcionou? – pergunta Catharina.

– Não foi dessa vez, minha linda! Acho que você foi precipitada. Ainda está muito abalada com a morte de seu tio. Quem sabe daqui a mais tempo. Podemos tentar de novo.

– Acho que você tem razão. Vamos deixar isso para depois!

– Você está bem?

– Estou sim. Onde estão todos?

– A maioria já se foi.

– Acho melhor eu ir também. – diz Catharina.

– É claro, quer que eu leve você?

– Não precisa.

– Estou de carro e você não me parece bem ainda.

– Já estou bem sim, não se preocupe. Eu vou a pé mesmo… é perto e gostaria de pensar um pouco.

– Bem, então por que não fica aqui, a casa está vazia mesmo. Isso. Fique aqui e descanse! Amanhã de manhã você volta para seu apartamento.

– É, acho que farei isso, então.

– Então eu já me vou. Vou dar uma carona pro Alberto. Alberto, venha se despedir!

Alberto se despede de um amigo e se aproxima dos dois.

– Ó Catharina. Espero que fique bem, nós já vamos!

– Tchau Alberto, tchau Celso!

– Tchau menina. Vou deixar a garrafa de licor para você, está bem?

– Obrigada e boa noite a vocês!

Em pouco menos de quinze minutos a casa está totalmente vazia e Catharina sozinha.

– É incrível como as pessoas te ignoram!

O que está acontecendo?

– Seu corpo minha querida. Estou no controle das coisas aqui.

Você está no meu corpo? Mas quem é você, um demônio? Não tem poder pra isso!

– Como pode duvidar? Não sente? Estou falando por você, andando por você. Você é só uma voz aqui dentro e seus segredos são como um livro aberto para mim. Tenho acesso a suas memórias e posso me passar por você tranqüilamente. Como fiz agora desde que acordou. Nenhum de seus amigos sequer duvidou por um instante que pudesse estar acontecendo algo de diferente com você.

Quem é você? Nenhum demônio possui o poder de dominar uma pessoa assim. E o “livre arbítrio?”

– Agora você vem falar das leis de Deus? Quem é você para fazer isso?

Quero meu corpo de volta, saia. O que quer com meu corpo?

– Usá-lo o que mais? A propósito preciso de um espelho, quero saber como “eu” sou.

Ela caminha até a parede onde há um espelho com ornamentos de flores em bronze e se olha. Encara Catharina com surpresa e satisfação ao olhar seus cabelos lisos e loiros muito bem cuidados. A pele sem marcas de espinhas ou cravos. Seus olhos azuis e seus lábios carnudos. Incomoda-se ao ver aquele manto cobrindo seu corpo, impedindo-a de ver suas formas e o tira com pressa.

– Ora, ora, você é bonita afinal. Seios fartos e uma bundinha firme. Tem celulite?

Ela abre a calça e se despe na frente do espelho.

O que está fazendo? Avaliando? Pare de me olhar, pare, pare de me olhar!

– Cala boca sua puta! Afinal, para que serve uma mulher se não para seduzir e fazer as vontades dos homens? – ela se vira diante do espelho reparando em cada centímetro de seu novo corpo.

Como pode dizer isso? Que tipo de criatura é você?

– Sou uma súcubo, sua irritante!

Um demônio menor. Você não tem poder para tomar meu corpo! Me deixe em paz, saia daqui, saia!

– Não? Não tenho poder para dominar você? Então o que estou fazendo agora? – ela faz expressão de deboche.

Como conseguiu? Demônio nenhum tem poder pra isso, você deveria entrar no corpo do cão.

– Um cão sem cabeça? Que ridículo! Olhei a alma de todos naquele círculo e adivinha quem tinha o espírito mais fraco, desprezível e fácil de se dominar? Você é dócil minha querida. Submissa. Não tem força de espírito nem para me expulsar de seu corpo.

Por que quer se passar por mim, o que tem a ganhar com isso? Me deixa em paz!

– Tem uma pessoa que eu quero. E com seu corpo. Com o corpo de uma mulher de verdade conseguirei. Quanto a isso não tenho dúvidas!

Não vai usar meu corpo para ter relações com outras pessoas.

– Impeça-me!

Saia de meu corpo criatura desprezível, eu ordeno!

– Em nome de quem?

– Em nome de Deus!

– Sem fé é só uma palavra sem valor!

Por que não me mata, então?

– Porque se eu quisesse um corpo morto procuraria num cemitério ou necrotério. Aí eu seria um zumbi, e ninguém quer isso.

Saia de minha cabeça!

– Cala a boca!

A voz na cabeça de Catharina é silenciada e ela segue nua até a escada que dá acesso ao segundo andar, onde ficam os quartos. Enquanto sobe os degraus acaricia seus seios e se diverte com os mamilos ficando duros. E olha os pelos de seu braço arrepiados.

– Há! Olha só, eu sinto arrepios quando brinco com meus seios. Que delícia! Sempre foi assim com você Catharina?

NÃO! ME DEIXE EM PAZ, por favor, me deixe em paz!

– Ah, o que, que há? Deixe de ser chorona, garanto que não farei nada que você não vai gostar. Sou um demônio do sexo, meu bem, você nunca mais vai querer saber de outra coisa na vida, iremos nos divertir tanto! Consegue sentir meus dedos passeando pelos pelinhos?

Sim, mas isso não me diverte, não gosto dessa idéia de não poder controlar minhas ações.

– Como se fosse verdade, nunca teve poder de decisão alguma, sobre aspecto algum. Já devia estar acostumada.

SAIA DAQUI, JÁ!


– Não grite na minha cabeça, quanto mais você luta, pior pra você. Porque não aproveita que tem uma profissional do sexo dominando seu corpo e libera suas fantasias? Que tal um siririca agora? – com os dedos na buceta ela começa a mexer e rebolar os quadris no topo da escada.

Não, de jeito nenhum, para com isso, por favor! Desse jeito não!

– Desse jeito não? E como você gosta então?

De jeito nenhum, me deixe em paz, eu já disse.

– Ah isso, então vai ser do meu jeito mesmo. Ah, ah… é incomparavelmente melhor quando se tem um corpo de carne. Ah!

Não faz isso, ah… não faz… pára!

– Está gostando, não é, sua putinha?

Não, é que não consigo raciocinar… me deixe em paz, por favor!

– Há, há, há, há, há, há, há!

Súcubo

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